SOBRE MÚSICA E SANTIDADE...

A noite era densa, pouco convidativa, não fosse a promessa da música que ressoava mais sutil e bela que as ameaças dos trovões. Era mesmo uma noite propícia à inércia do sono, ou ao vício tedioso da TV, não fosse a promessa da música a salvar-nos desses dois e de outros tantos males cotidianos.

A noite me lembrava Nietzsche, sim, “a vida seria um erro sem a música”. Por isso, não me furtei o direito à música naquela noite, cansada que ando de cometer pequenos erros diários.

Saí atrasada de casa, fato incoerente em se tratando de minha personalidade ansiosa. Receava enquanto dirigia não encontrar assento, nem tão pouco vaga pro carro, dado o adiantado das horas. Por que me decidira tão tarde? Vestira o vestido preto com a urgência de uma noiva em fuga desatinada, descia as escadas apoiada ao corrimão, ainda ajeitando os sapatos, em cujos saltos não confio. Mal havia dado tempo de cumprir essa espécie de ritual feminino, os lábios estavam ainda descoloridos, quando estacionei o carro na rua debaixo do local do evento, e não resisti, devia mesmo estar muito feminina naquela noite, acendi a luz do carro e me dediquei ao exercício quase amoroso de preenchê-los com o artifício da cor, quase uma necessidade, já que à minha pele falta melanina. Olhos marcados pelo preto do lápis, porque, no fundo, sempre os quis assim, negros, mais densos e mais profundos que os meus, e segui, bolsa a tiracolo, rumo à catedral, que naquela noite ganhava ares ainda mais suntuosos e sacros; a música a tornara assim, ao menos aos meus olhos, quase sempre hipersensíveis, e portanto, equivocados, confesso.

Foi com certo alívio que constatei a missa, que ainda se desenrolava com seus ritos e palavras repetidas uníssonas. Esperei. Observei todo o ambiente da praça e seus arredores durante essa espera. Observar é um exercício dos meus preferidos.

Encontrei um casal de amigos músicos, um outro amigo me encontrou (a miopia quase que me impede de reconhecê-lo). Mas o encontro pelo qual minha alma e sentidos aguardavam ainda estava por vir.

Acabou a missa e as escadarias encheram-se de fiéis apressados, como se a última trombeta apocalíptica tivesse acabado de soar, movidos pela urgência absurda de retornar ao lar e salvarem suas almas domésticas e pecadoras.

Aguardei o cessar desse trânsito e constatei satisfeita e boquiaberta o pequeno número de pessoas que permaneceram lá dentro para assistir ao concerto. Surpresa, feliz. Havia lugares de sobra para minha escolha e à minha disposição. Sentei-me mais ao fundo, já absorta pela grandiosidade das imagens que se apresentavam diante dos meus olhos. Nunca gostei muito da estética da nossa catedral, confesso, acho que sou mais afeiçoada aos traços tradicionais, mas ela assim, vista de seu interior, sugere uma grandeza e certo ar de austeridade.

Conversas esparsas preenchiam o ar santo de alguma leveza e constrastante ordinariedade. Estava sozinha num banco egoísta e só meu, mas os pensamentos que me dominavam, se ouvidos, superariam toda aquela vociferação. Ninguém os ouvia, estava segura e confortável, invisível no meu anonimato bendito.

Mais algum tempo e anunciariam finalmente o que eu aguardara. Não prestei a mínima atenção aos recados, não havia sentido algum nisso. Eu queria, desejava a música, só ela me interessava, ela movera meu ser até aquele templo profano. Foi aí que me peguei pensando na quantidade de templos vivos concentrados ali naquele templo de concreto...

Camerata Bariloche, agora eu a ouviria. Os sentidos todos aguçados, todo meu ser voltado ao exercício da contemplação do belo. Havia ainda gente ali? Alguém falara durante a execução de algum movimento?

Não posso responder a tais questionamentos, não na presença de Mozart e outros gênios. Mas confesso ter notado uma cena em especial. Uma mulher muito simples, mal vestida para os padrões da sociedade e da religião, adentrou ao recinto. Parecia estar maravilhada pela música, caminhou até quase a metade do corredor que se formava entre os bancos de madeira imponente, e num gesto que me comoveu, fez o sinal da cruz. Seria apenas um gesto mecânico? Não, tenho pra mim, que naquela noite, aquela reverência dirigiu-se ao menos a dois destinatários, ao Deus, cuja morte e ressurreição, celebrava-se e à música. Éramos todos seus servos aquela noite, devotos de um deus caprichoso e belíssimo. Todos prostrados diante daquilo que nos eleva a alma. Todos devíamos ter sorrido o mesmo sorriso daquela sábia senhora.

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