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SUB-VERSÃO

Tudo que digerimos (ou não)

 

         Cabe ao paciente trazer dois ovos crus, quatro fatias de pão de forma e dois sachês de geleia de morango, li cada palavra pausadamente, me certificando de que entendera bem. Me fariam consumir ovos crus? Mas isso não vai contra as normas de saúde?

         Não ando digerindo bem as coisas, nem mesmo esse novo exame proposto pela gastroenterologista. O fato é que ando estranha. Há anos não como carne bovina, toda vez que comia um mísero bifinho, ficava estufada por dias. Nunca procurei investigar, apenas deixei de consumir. Mas agora, no auge de meus quarenta e um anos, resolvi em conhecer melhor.

         Amanhã? Posso sim? A que horas? A concorrida consulta surgiu após uma desistência. Médica renomada.

         Vamos te examinar... É sua barriga está muito inchada. Vamos fazer uma endoscopia e alguns exames complementares. Foi aí que começou a história dos ovos crus.

         Na verdade, não os consumiria crus, com eles seria feita uma omelete, que seria misturada a um conteúdo radioativo. Sim, radioativo!

         Cheguei às 7h, em jejum, cumprindo todo o protocolo. Comi os pães tostados, recheados com a omelete e a geleia. Tomei o cuidado de fazer essa refeição bem lentamente, mas só por estar diante de uma enfermeira; nunca faço assim, reconheço. Fui encaminhada à sala para colher a primeira imagem. Esperei meia hora, e novas imagens foram coletadas. Uma hora depois, mais uma. Duas, três e quatro horas depois, também. A ideia, me explicou o médico mais tarde, era aferir quanto do alimento ainda restaria em meu estômago após as longas quatro horas que permaneci lá. Se restarem mais de dez por cento, algo está errado.

         Enquanto esperava, a longa e interminável espera que separava uma coleta de outra, digeri algumas coisas. Não sei se o conteúdo de Chernobyl, como passei a chamar em casa a refeição que me foi oferecida, mas muitas coisas. Essa digestão não se deu, por incrível eu pareça em meu estômago, não envolveu ácidos, nem tão pouco o trabalho do duodeno. Eu as digeri com a alma. A TV ligada no noticiário da manhã, que por pouco não se estende ao da tarde, falava do que todo noticiário costuma falar. Morte. Mortes, no plural, e das mais variadas. Meu estômago embrulha, não diante da morte, mas diante de sua celebração midiática. O sensacionalismo me enoja.

         O que me encanta mesmo é a vida, essa aventura incrível! A vida e as pessoas que me acompanham nessa jornada. Houve um momento em que a Sala de Espera ficou lotada de pacientes e seus acompanhantes, o ar, tomado por um cheiro deliciosamente gorduroso, vindo dos pacotes que se abriam toda hora; gente que precisava comer alimentos gordurosos para fazer cintilografia do coração. E eu os invejava, só havia comido a refeição de Chernobyl, depois disso, jejum absoluto, nem água me foi permitida.

         O que aquela máquina moderna e estranha constataria nos corações deles? O que constataria em meu estômago? Será que finalmente aquele senhor encontraria respostas para o problema que o acompanha há anos? Deixaria ele finalmente de tomar apenas sopa? Rezei pelo dia em que ele conseguisse voltar a comer alimentos sólidos. Rezei pela senhorinha cujo coração estava fraco demais e talvez precisasse de uma coxinha para se explicar. Por que tão fraco, afinal?

         Rezei por mim, mas sem muita fé, afinal, meu problema parecia mesmo ser o menor dentre os outros ali. Ruminei esses pensamentos a manhã inteira, interagi com meus semelhantes, me despedi deles, quando finalmente fui liberada após a realização da última coleta de imagens.

         Ainda estou ruminando o correr da vida... Tenho pensamentos ruminantes desde sempre. Talvez tenha mesmo algum problema de digestão. Preciso reaprender a sorver a vida, com calma, mastigando-a bem, sem pressa, sentindo-a entre os dentes, e na língua e depois, na garganta. Preciso aprender a digerir a vida, toda ela, com seus encantos e provações, certezas e dúvidas, medos e pequenas coragens, e tudo isso em comunhão com o que sou.

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