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Olhar Social

Uma escolha difícil, será?

Estamos muito próximos de encerrar o pleito de 2022, quando iremos decidir, efetivamente, quem será o mandatário da República – e, em alguns casos, dos estados federados – para os próximos quatro anos.

Longe de nos reconhecermos como “sujeitos de sorte”, como cantou Belchior (1946-2017), mas nos sentindo “sãos, salvos e fortes” – em especial, porque sobrevivemos, entre outras, a uma pandemia mundial e sua caótica gestão – somos convocados a participar dessas escolhas e decidir se seguimos a estrada trilhada ou mudamos o rumo. 
Escolha que dizem ser muito difícil, mas será mesmo?

Ao dialogar com pessoas dispostas a ouvir – porque chegamos a um ponto que muitas delas estão cegamente fechadas ao debate – é possível destacar alguns pontos mostrando o caminho perigoso que estamos alimentando, permeado por tantas mentiras, ódio, fomento a violência, intolerância e desrespeito à vida.

Ações criminosas – ainda que hipocritamente adotadas por quem se diz contrário a elas – não são uma questão de opinião, como ao ouvir o chefe do Executivo dizendo que “pintou um clima” com uma garota de quatorze anos. O nome disso é pedofilia, um crime previsto em lei, que poderia ser pautado no âmbito de uma educação sexual, no intuito das próprias crianças e adolescentes o identificar – além de reconhecer tantas outras formas de abuso e violência – já que a imensa maioria deste e outros crimes são cometidos por pessoas da própria família, ou seja, por quem deveria protegê-las. 

Famílias, por vezes, paladinas da moral e bons costumes, fiscais e inquisidoras da vida alheia, em que condutas que fogem aos padrões que defendem são duramente reprimidas e repudiadas; em que a intolerância, o ódio, preconceito e desrespeito estão presentes.

Para além da mediocridade do campo moral, por onde em grande parte o debate político tem se dirigido, o fato concreto é identificar a precarização das condições de vida de milhões de pessoas, numa espécie de naturalização da barbárie social. Afinal, se o deboche, descaso e sadismo do chefe do Executivo federal, ou, ainda, seu descaso e incompetência com a gestão pública, não lhe incomodam, qualquer argumento é inválido.  

No Brasil, onde a terra plana, a desinformação e ignorância crônica se alastram, como uma espécie de erva daninha, o que traz efeitos trágicos na vida em sociedade ao deslocar pactos coletivos a uma decisão de cunho individual, como a negação à vacina – não só de Covid-19 – mas de outras moléstias também, tidas até então sob controle ou erradicadas, como a poliomielite, meningite e paralisia infantil, que voltam a fazer vítimas, inclusive fatais. Uma espécie de regressão ou involução da própria espécie humana, ao dar passos para trás em avanços no campo da ciência, não à toa seu desinvestimento é desprovido de comoção.   

Um contexto distópico, no qual os retrocessos se alimentam na reprodução em massa de mentiras – que são transmutadas de censura, por quem a propaga; preceitos religiosos fundamentalistas – que inflam um discurso apocalítico, comandado por um ser divino implacável, intolerante e desumano; ou, ainda, pelo desejo egoísta em crer apenas no que convém.

É disso que se trata: seguir no campo democrático, debatendo as diferenças – não podemos ignorar sua existência, calar ou intimidar o contraditório –, construindo coletivamente respostas as demandas da própria sociedade; ou seguir rumo à plena barbárie, intensificando o que já estamos vivendo. 

O desejo que essas breves provocações gerem ações concretas, fomentando a reflexão que caminho queremos trilhar, vai ao encontro de seguir cantando Belchior: “tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro; ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo

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