Fotos: Shel Almeida
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Cultura

Um dia para ficar na história: cortejo a Zumbi percorre ruas do centro e ocupa escadaria do Centro Cultural

As comemorações deste ano do Dia da Consciência Negra, que aconteceu no sábado, 20 de novembro, tiveram não apenas o sentido de resistência, mas, também, de certa reparação histórica. 

Isso porque foi pelas ruas do centro da cidade, que levam nomes de antigos coronéis escravagistas, que passou o cortejo em reverência a Zumbi dos Palmares, líder do quilombo que é o maior símbolo da luta do povo preto. 

Como de costume, a concentração para a caminhada foi na Praça Princesa Isabel, em frente à Igreja do Rosário, aquela que um dia foi chamada de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. 

Ainda na concentração, o babalorixá Pai Bil de Xangô convocava seus filhos e filhas de santo a saudar o homenageado com gritos de “Viva Zumbi! Viva o povo negro brasileiro! Viva a comunidade de terreiro!”, quando, para surpresa geral, o bispo diocesano Dom Sérgio Aparecido Colombo veio até o centro da Praça cumprimentar os presentes.

“Estou aqui como um irmão, em meu nome, em nome do Papa Francisco e da Igreja Católica. Fico feliz em poder fazer parte do grupo da diversidade religiosa. Não importa o modo que nós cultua-mos a Deus ou o nome que damos a ele. O que importa é que nos amemos uns aos outros e nos queiramos bem. Que nos respeitemos e que conquistemos nosso espaço na sociedade. Que Deus, como pai criador, abençoe grandemente todos vocês”, disse. 

MARCO HISTÓRICO

O cortejo seguiu pela Rua Barão de Juqueri, passou em frente ao Clube Literário, local que, há cerca de meio século, não aceitava pessoas negras nem mesmo na calçada em frente, como relatou a fundadora da Arcab (Associação Recreativa e Cultural Afro-Brasileira), Izilda Toledo, no filme “Invisível - A História dos Clubes Sociais Negros de Bragança Paulista”.

Em seguida, percorreu a lateral das Praças Cel. Raul Leme e José Bonifácio, espaços onde, também segundo Izilda, negros eram segregados. “Essa caminhada foi um marco histórico por conta da mudança de trajeto, em que foi possível ultrapassar as ruas e calçadas que não eram permitidas a negros. Ruas e calçadas da área central da cidade que ainda carregam os nomes dos coronéis e dos casarões. Aos noves anos, sessenta anos atrás, eu fui impedida de estar ali. Era proibido aos negros estar na calçada do clube e também na praça. Existia lugar para brancos e lugar para negros para dar as voltinhas na Praça Central”, relatou ao Jornal Em Dia

Por todo o trajeto, os grupos de maracatu Malungos do Baque e Nação Nagô Mirerê revezavam as canções entoadas em reverência à ancestralidade, acompanhados do grupo feminino Raízes da Nega, além dos pavilhões das escolas de samba. O som dos agbês e dos tambores ressoaram por entre as ruínas dos casarões que ainda guardam a memória de uma cidade que não existe mais. A chegada ao Centro Cultural Teatro Carlos Gomes também foi histórica: o prédio, que foi construído para a elite poucos anos após a abolição, teve suas escadarias tomadas pelo povo preto e de terreiro. 

REVERÊNCIA À ANCESTRALIDADE

O dia seguiu com programação que ocupou todos os espaços do Centro Cultural. No palco do Teatro Carlos Gomes, aconteceram diversos shows, além de palestra sobre black music, e o Teatro Arena recebeu apresentações de capoeira e dança afro. Tão emocionante quanto a parte do cortejo a Zumbi foi a que homenageou mulheres negras, em uma reverência, mesmo que não mencionada oficialmente, à Aqualtune, princesa africana escravizada no Brasil e avó materna de Zumbi e à Dandara, companheira de Zumbi, ambas com tanta relevância histórica quanto ele. 

A programação previa um bate-papo entre mulheres negras sobre o despertar da Consciência Negra. Mas, assim que a arquiteta Letícia Santos e, em seguida, a advogada Thairine Silveira, pegaram o microfone, tornou-se um agradecimento conjunto à Izilda Toledo, ao relembrarem todo empenho e dedicação da fundadora da Arcab em promover as aulas do cursinho popular que permitiu que elas e diversos outros jovens negros almejassem a graduação no Ensino Superior, algo que era apenas um desejo, quase uma utopia.

Mas, foi quando a filha, Agnes Cabral pegou o microfone, citou a avó e a bisavó, que foram amas de leite, relembrou a própria trajetória no esporte e a falta que sentia da mãe por ter que dividi-la com tantos outros jovens como ela, que a imponente Izilda Toledo mostrou sua fragilidade e a plateia presente não conteve as lágrimas. E, para completar a emoção, a garota Akeelah Dandara, filha de Agnes e neta de Izilda, subiu ao palco para contar que venceu um importante concurso de poesia. Estavam ali três gerações de mulheres, com a consciência de seus potenciais, mas também da importância das que vieram antes delas, para que pudessem estar naquele palco. 

HOMENAGEM A MULHERES NEGRAS

Na sequência, a verea-dora Missionária Pokaia e a secretária de Cultura e Turismo, Vanessa Nogueira, passaram a entregar os cartões de prata às homenageadas Maria da Penha  Rodri-gues Silva, Ana Francisca Pires, Benedita Pereira Gil e Ya Danriju Mirerê, por suas trajetórias pessoais e também profissionais. Izilda Toledo também foi homenageada com o cartão. 

“Me senti lisonjeada, por ser lembrada em vida. Ser reconhecida como profissional e ser exemplo para outras pessoas, é muito bom e gratificante. Só tenho a dizer: gratidão”, falou Maria da Penha, primeia professora negra de Educação Física em Bragança e filha de Juvenal Silva, que foi presidente do Clube 13 de Maio.

“Me surpreendeu essa linda homenagem, demonstrando o trabalho que exerço com muito amor e dedicação nas comunidades, com as famílias carentes e moradores de rua. Todos estamos aqui para fazer o bem ao próximo. Deus me enviou com um propósito essa missão, que faço com a maior dedicação. Gratidão pelo reconhecimento ao meu trabalho e pela homenagem nesse dia tão importante, onde nós negros lutamos constantemente nessa sociedade”, comentou Ana Pires que, aos 78 anos e ainda é prestadora de serviços no município, atuando no Centro Pop.

“Quero aproveitar a oportunidade para dizer oquanto eu me senti agradecida por ter sido lembrada como representante dos afrodescendentes, como prestadora de serviço ao município e também como cidadã”, falou Benedita Gil, funcionária pública aposentada. Ela foi a primeira mulher negra a participante de concursos de rádios como cantora. Não seguiu a carreira, mas seus filhos se dedicaram à música e ao canto, entre eles o tenor Joel Gil, que destacou-se nacionalmente por sua ação voluntária em hospitais. 

“Eu fiquei muito contente, muito feliz por ter sido homenageada. É emocionante, não tenho nem palavras, só tenho mesmo que agradecer, de coração”, concluiu Ya Danriju Mirerê, Ya Moro da Nação Nagô Mirerê.

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