Nos idos da década de 1960, a filósofa judaico-alemã Hannah Arendt (1906-1975) dava vida a um dos conceitos mais reproduzidos, polêmicos e estudados ao longo de todo século XX até os dias atuais: a banalidade do mal, cujo nascimento se deu após sua cobertura jornalística na cidade de Jerusalém no julgamento de um ex-oficial nazista e está expresso no livro “Eichmann em Jerusalém”.
Na obra, a autora tenta entender e analisar o comportamento do réu – Karl Adolf Eichmann – um dos principais oficiais do exército de Hitler, acusado pela deportação e morte de milhares de judeus. Após o término da guerra, muitos oficiais – dentre eles Eichmann – deixaram a Alemanha, temendo o julgamento pelos crimes que cometeram durante os horrores da Segunda Guerra Mundial.
No Tribunal, o réu – um cidadão pacato e comum – não identificava crime algum em suas ações; nada além de seu dever e obediência às ordens designadas; práticas habituais, corriqueiras, realizadas enquanto parte do ofício; uma pessoa incapaz de medir as consequências do que fazia, ao tratar como normal e burocrático o massacre dos judeus que ocorreu durante o holocausto.
Guardadas as devidas proporções, o resultado das eleições de 2 de outubro nos mostra – ou confirma – o que a filósofa já dizia: o mal é banal, tratado como normal, praticado por pessoas comuns, que são incapazes de refletir sobre as consequências de suas ações ou mesmo analisá-las de forma racional; pessoas de bem – ou “cidadãos de bem” –, do nosso cotidiano, centradas em si, incapaz de sentir empatia, pensar no outro ou ter um espírito de coletividade.
O mal é tratado como algo comum, normal, o que estaria, na realidade, mais próximo de uma espécie de “colapso moral” do que alguma coisa diabólica, demoníaca ou monstruosa, como, por vezes, ocorre ao delegar a seres do além a responsabilidade por nossos erros e culpas!
Será mesmo que toda barbárie vivenciada atualmente é algo banal? A fome, a miséria, o desemprego, armamento, o ódio, etc. são normais? Num país onde a propriedade e economia valem mais que a vida, tanto faz morrer de tiro, de fome ou do vírus, e defendê-la parece utopia...
Será mesmo que não há nenhum mal em eleger, por exemplo, pessoas como Ricardo Salles (ex-ministro do Meio Ambiente da atual gestão federal), que pedia para “passar a boiada” durante a pandemia, propondo mudanças no regramento ambiental, contribuindo para sua destruição maciça?; não há mesmo mal ter escolhido como senador pelo estado de São Paulo o ex-ministro de Ciência e Tecnologia, que, apático em seu papel, praticamente extinguiu essa área?; é banal ter eleito a ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, como senadora pelo Distrito Federal, a qual avessa a própria pasta que atuava, se opôs ao direito de aborto de uma criança de dez anos vítima de violência sexual?
O discurso fundamentalista e fanático contribui, sobremaneira, para que não se reconheça, questione e identifique, de fato, as escolhas feitas. Por vezes, as pessoas são intangíveis no campo do diálogo ou ainda na vivência concreta da vida humana.
Por outro lado, num país como o Brasil – que acumula uma imensurável dívida social, que vivenciou mais de trezentos anos de escravização do povo negro, tem uma burguesia mesquinha, é conservador, violento, machista e transfóbico “quase” por natureza – as conquistas do último pleito, no campo progressista e da resistência, precisam sim ser valorizadas e inspiradoras na luta que segue. É necessário ter uma compreensão vigilante e ativa que mudanças estruturais, neste cenário, requerem tempo e dedicação – em especial da política educacional em prol da construção de um conhecimento crítico, transformador e emancipador!
Ao identificar que o Congresso Nacional vai sim ter a presença da mulher trans – com Duda Salaberte e Robeyoncé, por exemplo, num país que mais mata transexuais; da mulher negra, com Benedita da Silva (reeleita) e Ediane Maria do MTST, onde o racismo estrutural corrói as relações humanas e sociais; das indígenas, com Célia Xakriabá e Sônia Guajajara, onde o extermínio dos povos originários está em ascensão; além de identificar que o candidato do campo democrático contou com seis milhões de votos a mais que o idealizador da manutenção da barbárie. Isso tudo é extraordinário!
Se a fadiga nos abater ou o desânimo ousar nos acometer, precisamos relembrar os ensinamentos deixados pelo mestre Paulo Freire “num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário”. Seguimos na luta!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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