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Crônicas de um Sol Nascente

T(r)emor

A crônica é realmente uma questão de momento. Eu planejava nesta semana escrever sobre um protesto contra bicicletas, que presenciei há alguns dias, quando, no dia sete de outubro, algo bem mais relevante aconteceu: um dos maiores terremotos que já senti nestes vinte anos residindo no Japão.

Não, a magnitude foi grande – 6.1 graus –, mas não tanto quanto a registrada em “onze de março de 2011”, que, conforme devem recordar, desencadeou o tsunami e a tragédia de Fukushima. A diferença, porém, é que, no último dia sete de outubro, o terremoto ocorreu exatamente na região onde resido: Saitama. Em 2011, por exemplo, havíamos sentido apenas as “ondas” do terremoto ocorrido em Miyagi, que fica bem distante de nossa região. Dessa vez, no entanto, o choque para nós foi in loco; de modo que o nosso apartamento estremeceu para valer, e o perigo tornou-se “real e imediato”.

Por sorte, eu havia chegado mais cedo do trabalho, pois um aluno cancelara a última aula da noite. Se o meu aluno tivesse ido, eu provavelmente estaria no trem e longe de minha família no instante em que a terra tremeu; o que, claro, só aumentaria o meu desespero.

Mas, felizmente, eu já estava em casa, jantando. Meu filhinho dormia, e minha esposa e eu conversávamos sobre os acontecimentos do dia. No meio da conversa, porém, o alarme para terremoto, que todos os celulares de Japão possuem, disparou, e o nosso apartamento começou a sacudir violentamente. Nossa primeira reação foi, óbvio, correr para o quarto de Endi e fazer dois “escudos humanos” sobre o pequeno: assim, se algo pior acontecesse, suportaríamos todo o impacto de um desabamento para tentar protegê-lo. Em regra, não entro em pânico com tais tremores, mas dessa vez temi de fato a possibilidade da morte. E, mesmo não sendo o melhor dos católicos, naquele momento tudo o que pude fazer foi pedir a proteção de Deus até que a violência da terra cessasse. 

E quando, após o mais longo minuto de nossas vidas, o terremoto findou e nos asseguramos que Endi novamente dormia (ele, claro, despertara chorando, assustado), fomos a outros cômodos da residência para ver o grau do estrago. Foi aí que, chegando ao “quarto de tatami”, vimos: a pesada estante que há no local simplesmente caiu. E aí vem o detalhe mais assustador: no meio de semana é nesse quarto de tatami que eu durmo. Ou seja: se eu estivesse dormindo no lugar costumeiro, a estante cairia com todo o seu peso sobre a minha cabeça.

Sorte? A mão de Deus? Um milagre? Sinceramente, não busco nem devo buscar explicações. Limito-me somente a ser grato à vida por, mais uma vez, não cancelar a minha licença para seguir nesta estrada... tão cheia de solavancos.

***
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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