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SUB-VERSÃO

SóiS

Era um sol dourado lembrando-me da necessidade de brilhar e ser luz. Eram dois sóis enchendo a Terra de uma luminosidade perseverante e alegre, como só dois seres amorosos podem fazer.

Era um dia comum, como se os dias fossem assim, todos comuns... Que nada! Nós é que nos entregamos ao modo automático de viver e nos esquecemos da necessidade de seguir treinando o olhar para a beleza do óbvio.

Dia comum, trânsito comum, sinal vermelho pausando por alguns segundos a vida acelerada nossa de cada dia. Sinal demorado, tão demorado quando meu olhar ao se deparar com aquela cena.

E foi por gostar de olhar para o alto, que me deleitei com aquela cena absolutamente inusitada. Lá, logo acima dos emaranhados de fios, que conduzem a eletricidade da cidade, um emaranhado de amor. Um ninho sendo construído com o esmero de quem não se deixa incomodar pelo barulho da vida agitada lá fora, porque se mantém firme em seu propósito de construir aconchego em meio ao caos.

Lindos! Dois bem-te-vis bendizendo a vida, enquanto labutavam. Enfeitando de luz o dia apagado pelas preocupações e pela indiferença. Dois sóis brilhando esperança em tons amarelados, o papo cheio da música que encanta meus ouvidos, música-presságio “Bem-te-vi, bem-te-vi!”.

Um sinal fechado, uma bênção travestida de passarinho. O exercício sagrado de observar, mais uma vez me rendeu uma cena exuberante. E a vida segue me surpreendendo, bela por sua simplicidade, incrível pelo milagre que é.

Sinal verde, volto minha atenção para o trânsito, meus pensamentos transitam entre a poesia dos meus bem-te-vis sóis e a concentração dirigida ao movimento dos carros.

A via e a vida seguem agitadas. Essa última, porém, um tanto mais leve. Sigo meu caminho pensando no amor diligente dos bem-te-vis, na beleza inconteste de seu olhar, que sempre enxerga o bem em cada um, no amarelo-sol de suas barriguinhas, no seu compromisso bendito com a construção de seu abrigo, no fato de serem eles abrigos contra a banalização de nosso olhar.

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