Há algum tempo já que desenvolvi o hábito de comer apenas chocolates dos mais amargos. No início foi um tanto difícil, acostumada que estava ao dulçor dos chocolates ao leite.
Hoje em dia, só me apetecem mesmo os de 65% de cacau, 70%, 80%. E em minha última viagem a Ilhéus, essa escolha se consolidou mais ainda. Em visita a uma fazenda de cacau, pude ter uma verdadeira aula sobre o fruto adorado pelos maias. “Mais cacau, menos açúcar”, dizia uma das plaquinhas fofas que decoravam o local, onde foi ministrada a aula.
Sim, eu realmente aprendi a apreciar essa certa ausência de açúcar, moldando meu paladar ao que é mais saudável.
No entanto, a vida não cansa de me surpreender com doçuras irresistíveis. E eu, que não sou boba nem nada, não faço-me de rogada, e vez por outra, me entrego consciente e integralmente a elas.
Foi assim naquela quinta-feira gelada, quando me vi diante de um potinho lindo, estampado com a imagem famosíssima do Mickey Mouse.
Eu já havia cumprimentado Hyago pela passagem de seu aniversário, que ocorrera no dia anterior, quando, para minha surpresa, ele aproximou-se de mim com o tal potinho e disse:
- Professora, conforme eu prometi, o bolo do meu aniversário!
Confesso que fiquei até sem jeito, afinal, acabara de receber um pedaço dos mais generosos do bolo do aniversário daquele menininho tão amável. Como era de se imaginar, só eu recebera tal mimo, por esse motivo, tratei logo de colocá-lo na mochila, a fim de não causar vontade nos demais alunos. Situação um tanto complicada essa...
No intervalo, não resisti e abri o potinho. Bolo de chocolate! Recheado com brigadeiro!
Ah... O Altíssimo conhece mesmo essa menininha, pensei. E permiti-me a delícia do brigadeiro bem doce, abundante. Permiti-me comer feito criança, lambuzando-me com aquele generoso pedaço de bolo de aniversário. Terminei a empreitada com a boca e os dentes um tanto azulados, mérito do corante que fazia parte da decoração.
Dado o sinal, subi as escadas em direção às salas, um pouco mais feliz, um pouco mais doce, ciente de que pequenas doçuras são mesmo necessárias de vez em quando. Ciente de que, a despeito dos entraves e das amarguras que envolvem a profissão que escolhi e amo, a doçura sempre sobressairá.
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