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Olhar Social

As andorinhas

O dedilhar do sanfoneiro – ou gaiteiro, a depender da região do país – de mansinho vai se juntando à viola caipira, num cortês convite para que os outros instrumentos lhe acompanhem. As notas que se formam anunciam um clássico do sertanejo raiz, que permite a quem ouve voar junto com as protagonistas da melodia: as andorinhas!

Sucesso do Trio Parada Dura na década de 1970, “As andorinhas” é presença quase certa em toda moda caipira. Sua letra leve e simples embala a cantarolar seus versos: “as andorinhas voltaram, e eu também voltei, pousar no velho ninho, que um dia aqui deixei...”.

Longe de uma visão idílica, lembrar-se do seu voo nos faz pensar em sua ausência, cada vez mais longe das “selvas de pedras” – onde o verde é cada vez mais raro e pouco ou nada há de política ambiental – sobrevivendo, como nós, ao aquecimento global, desmatamento, poluição e morte de rios, da fauna e flora.

Um ser tão frágil e pequenino que poderia nos dar uma lição. Em bando, tecem suas revoadas, num comportamento típico das aves: sobreviver aos predadores da natureza. Juntas são mais fortes e se sentem mais seguras para mutuamente se proteger; e quando é chegado o período reprodutivo, se resguardam.

Na contramão do individualismo exacerbado pelo sistema capitalista, que seduz o indivíduo a pensar apenas em si, em bando também somos mais fortes!

Fortes a ponto de construir um país melhor para todas as pessoas; fortes para enfrentar a fome, o desemprego, a carestia da vida; fortes para lutar contra o preconceito, racismo, machismo, feminicídio e toda forma de atentado à vida, em especial, da “carne mais barata do mercado”, que é a carne negra, como cantou Elza Soares.

Em bando, podemos mudar a tragédia social e barbárie vivenciadas, uma necessidade tanto para nossa sobrevivência como também do nosso Estado Democrático de Direito, reiteradamente atacado numa tentativa infundada e criminosa em criar “cortinas de fumaça” face à balbúrdia do Executivo federal.

Num voo coletivo, podemos construir uma outra realidade, onde o amor, a empatia, a gentileza e o respeito predominem; onde a equidade e justiça social se estendam para todos; e onde se volte a sonhar, cantarolar e viver dias felizes.

Como parte do bando, somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, o que irá permitir que se voe alto e longe ou se viva enjaulado, porque voar não é mais seguro. Escolha como a que iremos vivenciar brevemente ao lembrar do pleito eleitoral que se aproxima, quando temos a responsabilidade – sim, somos todas e todos responsáveis por nossas ações e proteção do bando – de escolher pessoas que irão governar nosso país: presidente, governador, senador e deputado.

Pessoas que sejam terrivelmente comprometidas com a defesa intransigente dos direitos humanos e sociais, que não subtraiam a Pátria Amada, fomentando que ela seja de fato amada e não armada.

Candidatas e candidatos que não se apropriem da máquina pública, numa ardil estratégia de atender a seus interesses – ou de sua turminha – que defendam a “coisa pública” para todos; que promovam políticas públicas na perspectiva do direito e da cidadania, salvaguardando enquanto um bando, o bem comum; e que não nos esqueçamos dos traidores – sim, aqueles e aquelas que votaram a favor de reformas que tanto precarizaram nossas vidas e que em troca nos oferecem migalhas.

Como as andorinhas, muitas pessoas estão sim cansadas, feridas, machucadas, mas seguem voando, ainda que com grande dor, porque sabem que somente juntas são mais fortes, conseguem sobreviver e podem se proteger.

Sobreviveremos à tormenta e, em bando, chegaremos a uma outra estação, até porque –  cantarolando ao som da moda de viola – “uma andorinha, voando sozinha, não faz verão”.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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