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Crônicas de um Sol Nascente

Sem religião

Morando no Japão há tantos anos, confesso que acabei me esquecendo da Semana Santa. E tal esquecimento não se deu por antirreligiosidade, visto que, como muitos católicos, ainda respeito (e sempre vou respeitar) tudo o que representa a morte e a ressurreição de Cristo para a nossa fé. O motivo de eu haver me esquecido deve-se simplesmente ao fato de residir num país onde a religiosidade não desempenha um papel tão importante na vida social.

Sim, o Japão oficialmente é xintoísta (cerca de oitenta por cento da população). Mas isso significa tão somente ir ao templo por alguns minutos, jogar umas moedas em oferenda ao deus do local, orar e sair de mansinho. Ou seja: tudo na paz e silêncio – sem pastores, padres ou o diabo para encher a paciência dos fiéis com falsos sermões.

Lembro-me de que quando cheguei aqui, em 2001, um colega mexicano foi logo me avisando: “Uma das coisas que você mais vai sentir falta aqui é de igrejas (lê-se: católicas). Eles têm algumas, sim, mas são basicamente igrejas fundadas por missionários americanos”. Ou seja: igrejas protestantes.

E, como não sou protestante (nada contra nem a favor), fiquei muito tempo sem ir a uma igreja por aqui. Até que, no Natal de 2005, em Quioto, descobri uma igreja católica. Foi uma boa experiência na ocasião, pois pude assim conhecer outros católicos no Japão; mas depois acabei me mudando para Saitama e, desde então, não mais encontrei algo semelhante. Ainda que, falando a verdade, não sinta lá grande falta disso. Respeito todas as religiões, mas também as vejo com uma certa desconfiança (e isso inclui a católica). Simplesmente porque acho que elas foram inventadas pelos homens para assustar, dividir e controlar, provocando assim mais confusões e guerras do que propriamente trazendo paz espiritual.

Sim, sei que minhas palavras podem parecer para alguns até pecaminosas, mas é exatamente assim que penso sobre a função das religiões na história da humanidade. E talvez seja por isso que eu goste tanto de viver neste Japão “irreligioso”. Muitos podem contra-argumentar, porém, que essa falta de religiosidade dos japoneses pode também ser a responsável pelas altas taxas de suicídio e pelo surgimento de seitas no país (como a que realizou o ataque terrorista ocorrido na linha Hibiya de metrô, em Tóquio, no ano de 1995). Discordo, porém, dessa visão. Mesmo porque para estar louco e deprimido basta existir: e religiosidade nenhuma vai servir de alívio para quem já tem em sua natureza o desejo de ver o circo pegar fogo. Creio até que a religião piora o estado dos já abalados mentalmente: vide os charles mansons e os jim jones da vida...

Por tudo isso, ainda prefiro o “país sem religião” em que vivo – aliás, bastante seguro (mas esse já é um outro assunto) – a lugares dominados por hipócritas e perigosos líderes religiosos, que, disfarçados de cordeiros, lucram com o desespero alheio e atiram uns contra os outros. Do jeitinho que o diabo gosta.

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil Esquecido”, lançado pela Editora Folheando (Pará), e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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