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SUB-VERSÃO

Ritinha

Os dias são quase todos iguais, desde que a rua se tornou seu lar. Quase todos preenchidos pela luta por sobreviver e pelas memórias de quando tinha uma casa e uma família. Pensamentos que vão e voltam, culpa, medo, ressentimento, algum orgulho. Nunca ninguém soube ao certo porque Reginaldo havia parado ali. Ele não diz. E se não diz, é porque não carece de perguntar.

Há perguntas que, quando não feitas no momento certo, calam-se para sempre; há outras, porém, para as quais simplesmente não há momento certo, porque não devem ser feitas.

Reginaldo vivia meio chateado, é verdade. Todos haviam percebido, desde a moça da padaria que vez por outra lhe dava o pão para o café da manhã, até mesmo seus companheiros da rua, muitos dos quais, assim como ele, preferiam evitar o porquê de sua situação.

A alegria só retornou ao coração de Reginaldo quando ele encontrou Ritinha. Ah... E como ela era linda! Ritinha devolveu o sorriso ao rosto do moço sofrido e tornou-se sua inseparável companheira.

Quando estavam juntos era como se ele voltasse a ser criança, magicamente voltasse a ser o menino espoleta, de pés descalços e a mente cheia de imaginação, que brincava com o que tinha, lá nos confins da Bahia.

Ritinha o fazia lembrar-se de como a vida podia ser boa, mesmo estando os dois na rua, mesmo sendo os dois alvos de olhares tortos, quando não do total desprezo dos transeuntes.

Ele a amava. E era o tipo de amor mais autêntico esse o dos dois. O amor que nada exige, a não ser o bem do ser amado.

Os dias, depois da chegada de Ritinha, tornaram-se um pouco mais coloridos, mas ela chegara bem perto do início da estação mais dolorosa para aqueles que moram nas ruas: o inverno.

Todo ano nessa época, o padre da catedral, homem bom e justo, conseguia um monte de cobertores e os distribuía entre aqueles que moravam por ali. Naquele ano, não foi diferente. O frio dói. Dói inclusive na consciência daqueles que têm casa, e cama e cobertas, quando não ainda aquecedores... Daí a grande arrecadação do pároco.

Reginaldo aguardava ansiosamente na fila, feito como fazia quando criança no dia de Cosme e Damião para ganhar doces. A fila grande enorme, como a desigualdade que ainda separa os homens, só fazia aumentar, assim como o medo e ansiedade de Reginaldo. Ele precisava muito conseguir não só um, mas dois cobertores. De fato, ele queria conseguir um colchão, uma cama, uma casa, onde dividir o teto e o amor com Ritinha.

“Um cobertor por pessoa, amigo! Sinto muito...”

E ela por acaso não era uma pessoa? Ritinha era a melhor pessoa do mundo!

Por isso, quando retornou ao lugar dos dois, onde ela o esperava, animada e carinhosa como sempre, ele não teve dúvidas, tratou logo de envolvê-la no cobertor que acabara de ganhar. Abraçou-a como quem abraça a própria gana de viver. Ela, sensível como era, reconheceu-lhe o nobre gesto e o agradeceu com um latidinho alegre.

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