No último dia 21 de maio, o presidente Jair Bolsonaro abaixou o tom. Nitidamente enfraquecido politicamente e com a popularidade em queda livre, no dia em que o Brasil registrou 1.188 mortes causadas pela Covid-19 em 24h, Bolsonaro adotou tom mais ameno na reunião com os governadores ocorrida na manhã de quinta-feira.
Mas por quê? Ao que parece, Bolsonaro tem plena consciência de que o apoio que tem buscado no denominado “centrão” é imprescindível para sua manutenção no poder. E está disposto a negociar inclusive com Roberto Jefferson (PTB) e outros nomes bem conhecidos da velha política do toma-lá-dá-cá e maquiar seu discurso quando necessário.
Nas últimas semanas, o presidente, com a ajuda dos militares do governo mais próximos a ele, tem “comprado” apoio e “pago” a dívida com distribuição de cargos, inclusive a partidos políticos envolvidos em escândalos de corrupção, como o PP (Partido Progressista) de Paulo Maluf. A despeito da imoralidade que permeia a compra de apoio, Bolsonaro tenta garantir votos suficientes para barrar um eventual processo de impeachment na Câmara, caso algum dos pedidos, entre dezenas dos já protocolados, seja recebido por Rodrigo Maia.
Mesmo assim, diante da incerteza dos rumos do país sob o comando de Bolsonaro, o “centrão” ainda demonstra grande receio em apoiar o presidente de forma incondicional e sem embargos, pois seus pronunciamentos públicos e declarações à imprensa e apoiadores, como sempre, têm repercutido de forma extremamente negativa.
No entanto, é possível afirmar que Bolsonaro não mudou sua postura em relação às medidas por ele sustentadas até então no enfrentamento da pandemia e da crise econômica, mas apenas abaixou o tom para estancar as repercussões negativas que estavam afastando os partidos de centro e centro-direita que ofereceram apoio em troca de cargos.
Prova disso foi a declaração dada aos seus “afetos”, aglomerados todos os dias em frente ao Palácio da Alvorada, que poderia ter resultado na inviabilidade da reunião com os governadores que ocorrera pouco depois. Ignorando a imprensa, disse o presidente aos apoiadores:
“Imaginem uma pessoa do nível dessas autoridades estaduais na Presidência da República. O que já teria acontecido com o Brasil? Vocês vão ter que sentir um pouco mais na pele quem são essas pessoas para juntos, a gente mudar o Brasil. Mudar à luz da Constituição, da lei, da ordem (...)” (sic).
Então, podemos perceber que o posicionamento do presidente segue no mesmo caminho belicoso e inconsequente de sempre, mas durante a reunião, mostrou-se morno e até agradeceu as palavras de seu desafeto, João Doria.
Essa postura do presidente, falsa, mas inédita, vem na toada de seguidas declarações de que atuará sempre conforme comanda a Constituição Federal. Declarações também são falsas, pois até então o presidente participou e apoiou inúmeras manifestações cujo objeto era manifestamente inconstitucional. Ou seja, fica claro que Bolsonaro não tem apreço algum pela Constituição Federal e pelo estado democrático de direito.
A declaração do presidente acima citada certamente não passou despercebida pelos governadores, mas estes se fizeram de cegos, surdos e mudos para que a reunião que serviu para chancelar a liberação de verbas aos estados pudesse transcorrer sem entraves.
Outra prova cabal de que o posicionamento do presidente segue no mesmo caminho, é que deputados e militares têm o ministro Weintraub na alça de mira, pois este se nega a ceder espaço para os indicados do centrão pelo presidente Bolsonaro no Ministério da Educação em troca de apoio.
A desculpa para o início da “fritura” do ministro é que ele se excedeu ao falar sobre os ministros do Supremo Tribunal Federal na reunião ministerial que é objeto de apuração. Oras, Weintraub disse o que o presidente tem vontade de dizer, mas não pode. Ou seja, eventual demissão do ministro da educação terá o interesse em cargos por parte do centrão e o interesse do presidente no apoio oferecido como únicos motivos plausíveis, dado que o discurso do presidente é totalmente alinhado ao do ministro.
Certamente, a atitude do presidente Bolsonaro não colabora para a recuperação da necessária harmonia institucional e continua, sem trégua, a deteriorar a relação do governo federal com os governos dos estados, bem como com os poderes Legislativo e Judiciário.
Assim sendo, de forma escusa, através da velha política que durante a campanha eleitoral jurou combater, aparentemente tem conseguido encontrar o apoio necessário para sua manutenção no poder.
Em meio ao clima “morno” que o centrão tem ajudado a manter, uma falsa sensação de trégua pode ser sentida no ar, mesmo que conseguida com o sacrifício de promessas de campanha e, consequentemente, da ética.
Contudo, esse clima ameno, morno, pode se tornar uma verdadeira caldeira, pois, Celso de Mello, decano do Supremo, decidirá em breve se libera, na íntegra ou não, o vídeo da famigerada reunião ministerial onde governadores dos estados, ministros do Supremo e sabe-se lá quem mais, foram alvos de críticas “nada construtivas”.
Diante desse cenário, fica muito claro que Bolsonaro não está no caminho da redenção. Pelo contrário. Está se aprofundando nas “trevas” ao distribuir cargos e amenizar provisoriamente o tom de seus tenebrosos discursos para ceder aos anseios do centrão em uma derradeira tentativa de garantir sua permanência na Presidência da República.
Régis Fernandes é advogado e professor, pós-graduado em filosofia e em direito imobiliário, membro das comissões de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da 16ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil.
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