As obras do futuro Centro Cultural, prédio que já abrigou o antigo Colégio Diocesano São Luiz, estão em fase final para entrega. De acordo com o Prefeitura, a entrega da obra deverá acontecer em dezembro, no entanto, em função da pandemia do coronavírus, ainda não se sabe como será a inauguração. A Secretaria de Cultura e Turismo está analisando possíveis figuras bragantinas para homenagear como patrono do espaço.
Por enquanto, o prédio está recebendo mobílias, toda a estrutura do teatro, tratamento acústico, equipamentos de som e áudio, sancas, molduras, luminárias, dispositivos de acessibilidade universal, telefonia e rede, entre outros.
Os recursos utilizados para reforma e restauração são do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios Turísticos (Dadetur), no valor de R$ 6.891.570,00, e mais R$ 3,2 milhões para conclusão do projeto do Dadetur de 2019.
Em visita realizada ao local, o deputado estadual Edmir Chedid, responsável pela recuperação dos convênios para execução da obra, falou sobre a geração de empregos. “Aquilo que era o Colégio São Luiz e o Teatro Carlos Gomes agora está se transformando em um Centro Cultural, que gerará empregos em Bragança Paulista também. São recursos do governo do estado de São Paulo repassados à Prefeitura, onde a empresa responsável tem feito um trabalho maravilhoso”.
HISTÓRIA
Segundo a pesquisa do advogado Valêncio do Prado para a Escola de Profissionais Salesiana do Tribunal de Justiça do estado de São Paulo, de 1892 a 1894, o progresso econômico de Bragança Paulista levou dois jovens distintos da época, Izidro Gomes Teixeira e Felippe Rodrigues Siqueira, a construírem o prédio que seria o Teatro Carlos Gomes, com o auxílio financeiro de 67 munícipes, dada a riqueza e prosperidade da produção de café.
A inauguração do Teatro Carlos Gomes, primeiro do interior do estado de São Paulo, ocorreu com grande entusiasmo cultural com as apresentações das óperas Guarany e Bohème pela Companhia Lyrica Rotoli e Peri. Tratava-se de um prédio majestoso, de riqueza arquitetônica ímpar, ocupando uma área de quase quatro mil metros, com capacidade de receber mais de mil pessoas.
Dez anos mais tarde, o prédio ficou abandonado, à mercê da ação destruidora do tempo, e foi nesse período que a população passou a chamar o prédio de “O Belo Parado”.
Antes de a propriedade ser arrematada pela Câmara Municipal, Izidro travou uma batalha judicial contra os munícipes que ajudaram na construção do prédio, um deles, o Cel. Francisco de Assis Gonçalves, que queria resgatar as quantias doadas com a venda do edifício. Já Izidro queria ser reconhecido como único proprietário do Teatro Carlos Gomes. O prédio acabou sendo vendido à Câmara, aqueles que doaram receberam suas partes, e Izidro, mesmo após recorrer, não foi reconhecido como o único proprietário.
Em 1925, após ser adquirido pela Câmara Municipal, uma resolução transformou o prédio em uma instituição secundária para meninos – uma das exigências para a criação da Diocese de Bragança, e após a reforma, foi inaugurado, em 13 de março de 1928, o Colégio Diocesano São Luiz, que funcionou até meados dos anos 1960.
Posteriormente, em poder da Diocese, abrigou o Colégio Técnico Professor João Carrozzo, de 1980 a 2000, ano em que foi tombado como patrimônio histórico do município pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Bragança Paulista (Condephac).
No documentário “O Belo Parado” (2010), o administrador do colégio técnico, João Henrique Carrozo, informou que foi feito um acordo de sublocação com a Mitra Diocesana, e a família Carrozo restaurou o prédio para manter o bom funcionamento do colégio com reformas elétricas e hidráulicas. “Em 2000, a única coisa que estava estragada era pintura externa. Houve um aumento de aluguel muito alto e não tínhamos condições de pagar”.
O empresário bragantino Gláucio Ben Hur dos Santos estudou Técnico em Informática no período de 1989 a 1990. “Estar ali e ouvir as estórias que contavam trazia um sentimento de nostalgia, de poder estar em um lugar com muitas histórias do passado, muitas lendas urbanas, como aquela do túnel que levava até o Colégio IECJ”, recordou.
Por fim, dada a necessidade de constantes manutenções e o alto valor do aluguel pedido pela Mitra, o prédio ficou fechado fazendo com que entrasse em mais um período de abandono.
Em 2004, o prefeito Jesus Chedid assinou decreto pedindo a desapropriação do prédio pela Mitra Diocesana, o valor do imóvel foi negociado e este passou a pertencer ao erário municipal, pelo valor de R$ 700 mil.
Segundo relatório da Defesa Civil de 2005, após forte chuva e vendaval que provocou danos materiais a muitas famílias da região, o teto do saguão da entrada principal e o telhado da capela ruíram. Foi o primeiro grande dano causado pelo abandono. Foi feita, então, a contenção da fachada para evitar que o prédio desabasse e depois disso nada mais foi feito.
Em 10 de junho de 2010, um incêndio de grandes proporções fez com que parte da estrutura cedesse. Ficaram preservadas as fachadas e alguns materiais originais.
Em agosto daquele ano, três bragantinos, André, Juliano (Juca) e Gustavo (Guto) La Salvia lançaram no YouTube um curta metragem chamado “O Belo Parado”, em homenagem ao apelido dado pela sociedade bragantina durante o primeiro ano de decadência do imóvel. O curta começou a ser produzido em 2006 e acompanhou boa parte do período de abandono.
Ao Jornal Em Dia, Guto La Salvia explicou que a ideia de fazer o documentário partiu de seu primo, Juca La Salvia, que estava envolvido com vídeos experimentais e animação, e uniu os primos Guto e André para fazer um documentário.
Guto disse que ficou surpreso com o que encontraram na pesquisa histórica. “A quantidade de estórias fantasiosas e as pessoas que moraram e frequentaram aquele prédio, dos “causos”, dos fantasmas e histórias de túneis secretos até personagens maravilhosos, mas que não conseguimos provas ou documentos para atestar a veracidade deles. Algumas delas acabaram virando um outro vídeo, dos vários que fiz sobre o prédio após o documentário”.
Questionado sobre os impactos do curta para recuperação o patrimônio histórico, Guto acredita que a mobilização popular fez toda diferença. “Realizei mais dez outros vídeos sobre o prédio, fizemos passeatas, abaixo-assinados, participamos do quadro Proteste Já, do programa CQC, da Band, e cheguei a ir junto com o deputado Edmir Chedid à Secretaria Estadual de Cultura para defender os recursos destinados para a reforma. Não poupamos esforços, não nos baseamos em politicagem para conseguir que a reforma fosse realizada e o resultado é o estado avançado da revitalização em que se encontra”, afirmou.
Como cidadão bragantino, a lição que fica é de que somente a mobilização popular pode fazer a diferença para nossa sociedade. “Eu sozinho nunca conseguiria, mas foi a sociedade bragantina que obteve essa vitória. Muitos acreditam que este episódio da história de Bragança foi insignificante, foi superdimensionado, foi falso, mas eu tenho certeza de que foi um dos raros momentos em que a população se uniu e buscou um objetivo em comum e os resultados serão benéficos para todas as futuras gerações. Em pouco tempo, teremos um Centro Cultural no centro da cidade, abrindo espaço para artistas desenvolverem projetos e assim gerar o necessário incentivo à economia criativa da região”, finalizou.
A saga de restauro do “Belo Parado” está registrada numa playlist no canal do YouTube “Guto Ninni La Salvia”. Em breve, Gustavo espera fazer o último vídeo, chamado “A inauguração do Centro Cultural de Bragança”.
Por fim, em 2011, a pressão da opinião pública com o descaso com o patrimônio histórico levou a Prefeitura a lançar edital prometendo a recuperação, orçada em R$ 8 milhões.
O processo licitatório teve alguns percalços: A licitação foi paralisada pelo Tribunal de Contas (TCE-SP) por conter falhas no edital. Em setembro de 2011, o Ministério Público recomendou que a Prefeitura suspendesse a licitação, baseada em uma representação protocolada pelo então suplente de vereador Moufid Doher, com indícios de irregularidades na contratação da Fundação Para Pesquisa em Arquitetura (Fupam), sem licitação, para elaborar o projeto da obra.
Após vencer as barreiras judiciais, a empresa vencedora da licitação na época, Flasa Engenharia, executou as duas primeiras fases, com recursos oriundos de convênios assinados em 2009 e 2010 com a Secretaria de Estado de Turismo, por meio do Dadetur. Em virtude da não entrega das obras, que se arrastou nos últimos anos sem avanços ou conclusão, no final de 2016, o governo cancelou os empenhos desses convênios, deixando-os sem lastro financeiro para continuidade da obra.
Em janeiro de 2019, o prefeito Jesus Chedid negociou os débitos com a empresa de engenharia a abriu novo certame para término das fases 3 e 4.
A ordem de serviço foi assinada em março de 2019 para início das obras pela empresa TD Construções, Redes e Instalações de Gás Eireli, vencedora da concorrência pública, no prazo de nove meses. A execução dos trabalhos é fiscalizada por outra empresa de engenharia, a Kingline Gerenciamento de Projetos e Serviços Ltda.
Quando o local estiver pronto, a população poderá usufruir da seguinte estrutura: saguões, átrio, teatro de arena para 100 espectadores, galeria de arte, salões de exposições, salas para oficinas, workshops e cursos, recepção, pátio, guarita, sanitários, camarins, oito salas de aula, administrativo, secretaria, elevadores, Teatro Carlos Gomes para 284 espectadores com mezaninos, sala de apoio, Secretaria de Cultura e Turismo, biblioteca adulta com acervo para 22.500 livros e biblioteca infantil mais sala de leitura, salão de atos públicos, elevador panorâmico, entre outros espaços totalmente adaptados para acessibilidade.
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