Eis que rememoramos mais um Dia das Mães. Dia dedicado a elas, que dedicam parte – ou todas as partes – dos seus dias ao zelo e cuidado de suas filhas e filhos.
Mães, mulheres, jovens ou anciãs, sozinhas ou acompanhadas, que “seguram o rojão”, como dizem, ao dizer da labuta diária nessa nobre e árdua tarefa.
Tarefa, por vezes, vivida e exercida de forma solitária, quando sozinhas ou abandonadas respondem – do seu ventre e pela vida toda – pela prole trazida ao mundo, quando lembramos que mais de 5 milhões de crianças – segundo dados do Conselho Nacional de Justiça – não possuem sequer o nome do pai na Certidão de Nascimento. Cuidado que, eventualmente, se estende aos tantos outros membros da família, já que, majoritariamente, quem cuida é a mulher! Como se cuidar fosse coisa de mulher, seja cuidar de filhos ou de tudo ao seu entorno!
Desconstruir esses papéis históricos e socialmente atribuídos – ou seja: isso é coisa de mulher e isso é coisa de homem – é algo, aliás, em construção, em especial ao compreender que o exercício do cuidado, por exemplo, é também responsabilidade do gênero masculino, seja em relação ao cuidado com filhos, demais pessoas ou ainda do próprio lar.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), as mulheres – mesmo aquelas que trabalham fora de casa – dedicam 6,8 horas a mais que os homens nos afazeres domésticos e/ou no cuidado de pessoas. Literalmente, as mulheres se “viram nos trinta” e acumulam dupla, tripla... jornadas!
Quanto a isso, o governo federal tem dado os primeiros passos “para cuidar de quem cuida”, por meio de uma Política Nacional de Cuidado, que garanta sua realização na perspectiva do direito e apoie as famílias nessa tarefa. Debate que carrega, ainda, a defesa de que esse trabalho, em grande parte exercido por mulheres, deva ser sim remunerado!
Mulheres, ainda, que não se curvam e que encontram, por vezes, na dor o sentido da vida, como o movimento “Mães de Maio” (grupo de mulheres constituído em 2006, que denunciava a violência policial, após terem seus filhos mortos pelos agentes de segurança), cuja luta segue, porque a violência e o genocídio do Estado não acabaram. Estado que mata e mata quem é pobre, preto e periférico, no qual a classe social é imperativo para a reprodução do trato desigual e desumano.
O jeito é enxugar as lágrimas, engolir o choro, arregaçar as mangas e transformar o luto em luta!
Há ainda aquelas que contam apenas consigo ou contam nos dedos com quem podem contar, face as tantas necessidades do dia a dia, já que, por vezes – ou muitas vezes – a rede de apoio é inexistente, restrita ou falha: seja a rede de apoio estatal, por meio dos serviços públicos, seja a rede familiar ou de pessoas próximas.
No caso do Estado, as mães ficam de mãos atadas quando não há vagas em creches aos seus filhos; quando não há qualquer apoio ao exercício da maternidade, em especial às mulheres que vivem do trabalho informal ou da ausência dele...
E assim, elas vão se desdobrando aqui e acolá, do jeito que dá!
Mães, que do seu jeito, são subjugadas, avaliadas, destratadas e estão em permanente vigilância em nossa sociedade, a qual impõe seus tratos e destratos de modo implacável, cobrando delas mais – muito mais – do que elas podem ou conseguem oferecer, quando, no limite, fazem tudo que podem!
E fazem muito!
Que no Dia das Mães e em todos os demais dias do ano, lembremos também – para além das merecidas homenagens e flores – que “metade do mundo são mulheres, a outra metade, os filhos delas”, como disse certa vez a pensadora Efu Nyaki, da África Oriental.
Talvez assim consigamos imprimir condições melhores a cada mãe, no seu dia e em todos os dias do ano, já que diz respeito a todo mundo!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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