VIDA
Viu a mãe morrer nas mãos do pai,
o pai ser levado pelo tempo,
pros quintos dos infernos,
onde devem ficar os maridos abusadores.
O filho mais novo ser corroído por um câncer,
foi aí que aprendeu a palavra metástase,
palavra diferente essa, difícil de falar,
mais difícil ainda de ver.
Há palavras que nunca que deveriam ser vistas,
deviam permanecer em seu estado de palavra,
ser só grafia,
sem necessidade de explicação.
O filho mais velho,
morto de morte matada,
bala perdida, disseram,
mas como é que bala perdida acerta justo seu menino?
O marido, esse ela viu sumir na curva da rua,
lá onde as pessoas que um dia amamos,
viram lembranças.
Foi comprar cigarros.
Mas foi só quando sentiu sua alma
tomada pela desesperança,
como que se uma mão
arrancasse-lhe do útero seco
a última poesia,
que ela sucumbiu à morte,
e sendo ela a vida ainda mais plena,
transmutou-se em palavra.
Feliz dia das mães!
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