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SUB-VERSÃO

Professora, eu não entendi!

- Professora, eu não entendi.

- Eu também, não, meu querido. Tudo isso é tão estranho e inesperado... Outro dia mesmo estávamos todos na escola, felizes, rindo, aprendendo uns com os outros língua portuguesa e sobretudo sobre a matéria mais importante, que é a humanidade de que todos nós somos feitos. Hoje, cada um na sua casa, cada um sentindo à sua maneira essa angústia que o fato de estarmos separados gera.

É preciso que seja assim, nós sabemos. Mas cá entre nós, que maneira estranha é essa de aprender sem professor, não é mesmo? Que falta eu sinto de todos vocês, do contato direto com seres humanos tão incrivelmente diversos e com os quais aprendo tanto todo dia.

Escolas vazias sempre foram para mim sinônimo de tristeza. Falta a vida, falta a energia com que vocês conduzem o curso da história, mesmo que sem perceber. Faltam os risos, os sorrisos, os bons dias, falta a educação, no seu sentido mais amplo e realista. Educação se faz com professores e alunos em contato pessoal.

Não, eu não estou desmerecendo o uso das tecnologias de ensino a distância, inclusive já me beneficiei delas algumas vezes, enquanto estudante, mas nada, e agora isso se faz mais claro do que nunca, nada substitui a figura do professor.

Sim, esse ser odiado por muitos nesse país que relega à educação um lugar de desprestígio, esse ser desvalorizado, mal visto, chamado de vagabundo e tratado na base da porrada pela polícia quando da defesa legítima de seus direitos. O professor é essencial no processo de ensino-aprendizagem. Essencial.

Cansado, sobrecarregado muitas vezes pela burocracia burra, acumulando cargos em horas exaustivas de trabalho em casa também, o professor é ainda essencial!

E só o é porque, e que isso fique bem claro, é um ser humano! Seres humanos aprendem em contato com outros seres humanos. Essa pandemia devia servir para nos relembrar isso.

Não sei se todos farão a lição de casa dessa vez, porque assim como na escola, na vida também há alunos resistentes...

Mas nada que um bom professor, amoroso e ciente daquilo que professa não ajude a resolver com algumas doses de paciência e insistência.

Nosso professor maior é um especialista em alunos difíceis. Confesso que gosto deles também, são desafiadores.

O desafio hoje, imposto à educação por essa pandemia, é ensinar sem a presença física dos professores. Difícil... Parece inclusive que estamos mantendo a desigualdade já tão antiga nesse país, quando sabemos que nem todos os nossos alunos terão acesso às informações. Parece que esse momento só vem ratificar o que já acontece, ainda que em proporções menores, quando o sistema educacional, que não está de forma alguma ileso da realidade em que seus alunos estão inseridos, é afetado por ela, e não consegue, a despeito de todos os esforços hercúleos de seus mestres reinventá-la.

A educação devia garantir a todos, sem exceção, a oportunidade de tornarem-se sujeitos-históricos, seres pensantes e atuantes, capazes de modificar sua própria realidade e por que não, a realidade de seu país.

Que saudade eu sinto da sala de aula, lá é o lugar em que me sinto mais humana. Lá é o nosso lugar, meus e de meus alunos. A sala de aula é o lugar mais bendito que conheço, o mais ridicularizado também. Ainda assim, é a ela que pertenço, e para ela que mais desejo voltar assim que for novamente seguro.

 

 

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