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Crônicas de um Sol Nascente

Produzindo japoneses

Assisti recentemente a um belíssimo documentário intitulado (em Inglês) “The making of a Japanese” (algo do tipo: “A produção de um Japonês), da diretora nipo-britânica Ema Ryan Yamazaki.

O filme é de 2023, mas, posteriormente, foi lançado em uma versão mais reduzida com o título “Instruments of a Beating Heart” (Instrumentos de um coração a bater) – versão esta que acabou concorrendo ao Oscar de 2025.

Assistimos, minha esposa e eu, à versão mais longa. Tínhamos há muito tempo o interesse de ver esse filme, especialmente porque trata do tema da escola primária, que no Japão corresponde aos seis primeiros anos escolares. E o nosso Endi, em 2025, começou essa importante fase da vida.

Como fã de cinema (e agora roteirista), aplaudi a sensibilidade da diretora Yamazaki ao acompanhar a transformação e o progresso das crianças, que aos poucos vão se tornando cidadãs japonesas – como uma professora bem mencionou no filme, “na escola elas entram crianças e saem transformadas em japoneses”. E isso, claro, não ocorre por meio de nenhuma fórmula mágica, mas sim, por meio de muita dedicação e disciplina.

Particularmente, uma dessas histórias chamou-me muito a atenção: o da garotinha que fez vários testes para tocar instrumentos musicais. Reprovada algumas vezes, ela chorava, mas jamais desistia. Até que, finalmente, foi aprovada para tocar um instrumento de percussão na orquestra da escola.

Mas a jornada dela não acabou aí. Quando começaram os ensaios, ela apresentou mais dificuldades do que os demais membros da orquestra. Foi o suficiente para que o professor a advertisse rispidamente diante de todos – algo muito parecido com o que costumava fazer o personagem de J.K. Simmons no filme “Whiplash – Nos Limites”.

A pequena, claro, caiu nos prantos novamente. E foi aí que vi o poder da disciplina japonesa. O maestro, ainda duro na queda, disse-lhe: “Adianta chorar? Isso resolve alguma coisa? Ou você prefere se esforçar mais?”.

E, engolindo o choro, a menina começou gradativamente a melhorar o seu desempenho, até o professor dar-se finalmente por satisfeito.

Ou seja: nada de tapinhas nas costas ou palavras do tipo “coitadinha”, que nós, latino-americanos, costumamos fazer e dizer a nossas crianças – produzindo assim seres fracos, mimados e despreparados para os desafios da vida.

Rigor? Sim. Trauma? Duvido. Pois essa criança, no futuro, será forte o suficiente para encontrar uma solução para cada desafio que enfrente, sem se fazer de vítima ou “culpar os demais” (uma prática que, sinceramente, sempre me irritou no Brasil).

Como mencionei antes, sendo fã do bom cinema, aplaudo o documentário de Yamazaki. Já em relação aos mestres japoneses, como pai, chego mesmo a ovacioná-los.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários, é também roteirista de cinama. Em 2024, foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest”, nos Estados Unidos. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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