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Crônicas de um Sol Nascente

Pobres criaturas

Na semana passada, assisti ao filme “Poor Things” (no Brasil intitulado “Pobres Criaturas”), que concorre em onze categorias do Oscar 2024. E tantas indicações são merecidas, vale frisar, principalmente no que se refere à magistral interpretação de Emma Stone, que, dando vida à frankensteiniana Bella Baxter, entrega ao público uma personagem nada menos que inesquecível.

Não vou trazer aqui detalhes do enredo, pois, cinéfilo que sou, também detesto spolilers. Limito-me a dizer que a comédia – sim, “Pobres Criaturas” é sobretudo uma comédia – não é para todos os paladares. Principalmente para alguém como eu, que nos tempos de faculdade costumava passar mal nas aulas práticas de Medicina Legal. Isso porque o diretor do longa, o grego Yorgos Lanthimos, é um mestre brechtiano que, construindo uma narrativa com raízes no teatro do absurdo, não raras vezes choca o público por meio de cenas verdadeiramente perturbadoras. Preparem, portanto, os seus estômagos, é tudo o que digo. No entanto, em meio a bizarrices que, no fundo, são espelhos de nossa distorcida alma humana, o cineasta também nos presenteia com uma história que faz o público rir, chorar, refletir... como nas grandes tragédias gregas.

De modo que saí da sessão mesmerizado e, de certa forma, apaixonado pelas pobres criaturas do longa. Por Bella Baxter, claro, mas também por seu criador, Dr. Godwin, e pelo ingênuo assistente deste, Max McCandles – três seres quebrados que, quando juntos, são reconstruídos.

E para mim foi esta a mensagem mais importante de “Pobres Criaturas”: a perfeição nascida da comunhão de imperfeições. De como renascemos quando encontramos as pessoas que desejam nos consertar. Foi assim que enxerguei a obra; talvez até pelo próprio estado de espírito que eu tinha no momento em que adentrei a sala de cinema. Explico: naquele dia, eu havia recebido algumas notícias na Literatura que me deixaram realmente abatido. Só que também, logo depois da tempestade, recebi o apoio e o carinho de dois amigos escritores, que me fizeram ver que aquela “derrota” não era e jamais seria algo definitivo – mãos amigas, pois, que, naquele instante, vieram reconstruir-me.

As redes sociais costumam citar uma frase atribuída a Ernest Hemingway, que, na verdade, pode ou não ser de autoria do genial escritor (aliás, como muitas das frases que pipocam no caos que é esse mundo virtual). Mas o fato é que, sendo de Hemingway ou não, a frase é de grande sabedoria, merecendo, pois, ser reproduzida. É ela: “Quem estará nas trincheiras ao teu lado? E isso importa? Mais do que a própria guerra!”.

Sim, precisamos e muito de alguém ao nosso lado. Caso contrário, ficaremos assim: quebrados e sem conserto – pobres criaturas, enfim, perecendo nas trincheiras.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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