A frase de origem desconhecida, mas popularmente reproduzida “nada é tão ruim que não possa piorar” permite tomar como referência qualquer objeto. No caso aqui, esse parece ser o sentimento no campo do debate político.
Bons tempos quando tínhamos o jogo político centrado num campo da esquerda – ligado à transformação da sociedade, reconhecendo suas desigualdades e injustiças – e outro de direita, simpatizante da realidade tal como se encontra, onde a desigualdade social é inevitável e natural. Direita liberal, cujas pautas centravam-se, entre outras, na defesa das privatizações de estatais, na redução e focalização das políticas públicas, na defesa do livre mercado e poder limitado do Estado.
Ideologias, sejam elas de direita ou de esquerda, que geravam importantes e, por vezes, tensos debates em prol da sociedade que temos e que defendemos. Assim é a democracia: constituída por sua diversidade, pluralidade e capaz de debater projetos societários distintos, preservando o respeito e a integridade.
E hoje o que temos?
A tal polarização política tão enfatizada nos espaços do debate público parece distante desse passado recente, no qual o debate político se perdeu. Agora, o que temos é algo fora do espectro político, em que uma horda espalhafatosa, uma espécie de chorume da política, ganhou voz, espaço e poder. Não há, por vezes, propostas a não ser falas enfáticas centradas no campo moral, conservador, que propagam um medo irreal e informações distorcidas ou mentirosas.
Partidos políticos e pessoas que usam da política – e do espaço que ela dispõe – para alimentar suas redes sociais, criar o caos, propagar o ódio e intolerância, lançar fake news, desviar o foco dos problemas reais – numa sociedade com tantos problemas, como a brasileira – cometendo inúmeras infrações éticas e criminosas, salvaguardados pelo manto do mandato político em vigência.
Não faltam exemplos de parlamentares, que estão muitos mais comprometidos com os likes que irão receber em suas redes sociais ou ainda na lacração de alguma polêmica, do que em deixar alguma contribuição para sociedade durante seu mandato.
Bertolt Brecht, poeta alemão (1898-1956), nos diria: “que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio?
Defender que voltemos a ter debates políticos sérios, comprometidos com nossa realidade, cujas propostas – ainda que contrárias ao que defendemos – tentem responder aos problemas concretos; sejam geradoras de pressões e contrapropostas; e contribuam, de fato, para assuntos de interesse comum.
Muito longe dessa tal polarização, que transformou a política numa grande arena de brincadeira e zoeira, onde temos, por um lado, a turma do vale tudo, que busca desmedidamente atrair a atenção de quem assiste as suas palhaçadas; e de outro, quem resiste ao circo armado e segue entre responder as barbaridades criadas e seguir na defesa de um projeto societário.
Realidade essa que podemos e devemos dar um basta, em especial ao lembrar que teremos neste ano de 2024 as eleições municipais. Uma boa oportunidade para retomarmos o debate político com pautas que são de interesse comum e tentem responder as necessidades do cotidiano como, por exemplo, temos vagas em creche? O asfalto das ruas está bom? Como está o transporte público? Temos coleta seletiva? O que temos de política ambiental?... Entre tantas e tantas demandas que impactam no cotidiano da vida.
Parece óbvio, mas é um momento oportuno para identificar quem de fato tem algo a propor e está comprometido com as necessidades concretas que emanam da sociedade e impactam no dia a dia; e quem está procurando um espaço – como o espaço político, cujo alcance é significativo – para destilar ódio, criar mentiras e alimentar suas redes sociais.
Em 2024 temos uma boa oportunidade, temos sim!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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