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Crônicas de um Sol Nascente

Os demônios e o Titanic

Cinéfilo à moda antiga, uma tristeza adicional neste ano de pandemia tem sido não poder frequentar mais assiduamente as tradicionais salas de exibição – visto que hoje, no Japão, como em outras partes do mundo, é permitido apenas um número reduzido de espectadores; e isso após reservar com antecedência. Empecilhos, enfim, que, vale frisar, tiram de nós aquele velho prazer de, passando em frente ao cinema, decidir na hora o filme a que queremos assistir. Restando-nos, portanto, Netflixes e afins, que, confesso, não me despertam muito interesse.

Sim, assumo: sou um dinossauro quando se trata de cinema. Mas, felizmente, no Japão, minha espécie ainda não está em extinção. E a prova é que, mesmo com todas as dificuldades que a pandemia impôs, as salas de cinema se mantêm com um público fiel. A ponto de uma animação ter tido tantos espectadores nos últimos meses que “bateu” nas bilheterias o recorde de nada menos que o oscarizado Titanic.

Estou falando, claro, de “Demon Slayer” (traduzindo, “Matador de Demônios”), cujo enredo, baseado em uma história em quadrinhos (ou, em japonês, mangá) também de grande sucesso, relata a jornada do jovem Tanjiro Kamado: que teve quase toda a família assassinada por demônios – além de Tanjiro, sobrevive apenas uma irmã, que, sequestrada, é transformada também em um demônio. De modo que, para trazê-la de volta ao mundo dos humanos, Tanjiro torna-se o matador do título.

O enredo de “Demon Slayer”, que mais parece escrito para o saudoso Charles Bronson, é um grande sucesso principalmente entre as crianças japonesas. Aliás, só descobri a respeito do filme porque o meu filho chegou da creche reproduzindo os gritos e gestos do personagem principal – isso, claro, após ver os coleguinhas maiores fazendo o mesmo. Infelizmente, ele ainda é muito pequeno para assistir a um filme sobre carnificinas; mas, vendo o seu entusiasmo, comprei algumas revistinhas para que ele as folheasse (ou melhor, rasgasse), ao mesmo tempo em que comecei a pesquisar mais sobre o filme que é hoje uma verdadeira febre no Japão. E foi assim que descobri que a obra cinematográfica que deixara para trás o poderoso Titanic também caminha, agora, a passos largos, para superar os números de outra famosa animação, que, até então, era a maior bilheteria na Terra do Sol Nascente: a também premiadíssima “A Viagem de Chihiro”.

E não é à toa, acredito, que as sagas de Tanjiro e Chihiro tenham caído tanto no gosto dos japoneses: pois são histórias de dor, aprendizado e transformação, tão próprias da cultura nipônica.

Narrativas que, pertencendo ao universo da literatura fantástica, terminam por nos ensinar (ou fazer recordar) que o ser humano pode superar-se e vencer quaisquer ameaças: sejam demônios ou pandemias. Desde que, claro, não trate com descaso a ponta de um iceberg.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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