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Olhar Social

Ora, o Estado é laico!

“A religião é o ópio do povo”, já dizia o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), reconhecendo que ela pode ser uma espécie de anestésico diante das condições precárias de vida ou mesmo o conforto que alivia a alma das tormentas diárias – não à toa vemos a presença mais proeminente de igrejas em lugares mais desassistidos de serviços públicos, infraestrutura e condições básicas de sobrevivência.

Professar, ou não, alguma crença e socorrer ao sagrado pelas necessidades materiais e espirituais é algo – ou deveria ser – de foro íntimo.

Perigoso é – nas palavras no Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso – o uso abusivo que se faz da religião na “[...] instrumentalização de líderes religiosos para captar votos e dizer ‘o meu adversário é o demônio, quem votar nele não vai para o céu’”. Lembrando, ainda, da tentativa de golpe ocorrida em 8 de janeiro de 2023, em que os terroristas se ajoelhavam para orar e circulavam com a bíblia na mão, enquanto depredavam a Esplanada dos Ministérios em Brasília.

Perigoso também é sobressair a crença religiosa para compor os debates públicos na defesa de direitos e assuntos que são de interesse da sociedade, como vimos na indicação ao mesmo STF do ministro “terrivelmente evangélico”; e temos assistido no Congresso Nacional inúmeros retrocessos protagonizados, especialmente, pela chamada “Bancada Evangélica”.

Ora, o Estado é laico!

O Estado precisa se manter laico, quer seja pelo respeito a pluralidade de crenças presentes em nosso país – ou mesmo sua ausência e descrença; quer seja pelo perigo em impor um “Deus” opressor e intolerante, capaz de mandar fuzilar – literalmente – quem não segue seus mandos e desmandos.

Oficialmente no Brasil, o divórcio entre Igreja e Estado ocorreu em 1890; nossa Constituição Federal mais recente, a 1988, assegura esse Estado laico, mas não faltam exemplos em nosso cotidiano que mostram que essa relação não está bem resolvida, quando vemos, por exemplo, a presença de crucifixo em quase toda repartição pública; identificamos nas notas de reais um “Deus seja louvado”; e mais recentemente assistimos o inflamado discurso feito pela ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, na manifestação de 25 de fevereiro deste ano em apoio ao ex-presidente.

Em suas palavras: “Por um bom tempo, fomos negligentes ao ponto de falarmos que não poderia misturar política com religião, e o mal ocupou o espaço [...] Chegou o momento da libertação. Eu creio em um Deus todo-poderoso capaz de restaurar e curar nossa nação”.

Sua presença puxando, sobretudo, os cristãos neopentecostais, não é de hoje. A vimos, durante o governo anterior, protagonizando várias cenas em que a Esplanada parecia um “culto aberto” com seus discursos inflados e apelativos centrados em dogmas religiosos. 

Essa ala fundamentalista atravessa e atropela o Estado a ponto de desejar “tomá-lo”; faz ainda uma leitura completamente descontextualizada e anacrônica da bíblia, reforçando esse ser celestial avesso do que supostamente seu filho tentou pregar, em que deveriam prevalecer relações de amor, solidariedade e misericórdia.

Longe disso, os fundamentalistas amparam-se no chamado “velho testamento” e associam o chicote da bíblia com a presença de armas; compreendem que Israel é a terra prometida – por isso a adoração incondicional ao ponto, inclusive, de tecer certo apoio ao extermínio do povo palestino; além, entre outros, de interpretarem a liberdade como algo irrestrito para fazer o que quiser, como liberdade para ser racista, machista, homofóbico, xenofóbico etc, etc...

Não é de hoje essa miscelânea entre política e religião. A história nos mostra o estopim de guerras – chamadas santas – ou governos teocráticos, que tinham alguma Igreja no comando, dando as ordens de extermínio e destruição. Isso é avesso a qualquer tentativa de Estado democrático, no qual prevalecem as relações de respeito a toda diversidade presente.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo

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