Em outubro de 1938, mais exatamente em uma noite de Halloween, o ator e cineasta Orson Welles aterrorizava os Estados Unidos através de um programa de rádio que narrava uma invasão alienígena ao planeta Terra: o que gerou um pânico em muitos ouvintes que, provavelmente, perderam o prólogo, lido por Welles, que anunciava tratar-se de uma adaptação do romance “A Guerra dos Mundos” (1898), de H.G. Wells. A narração, que tornaria célebre o futuro diretor de “Cidadão Kane”, pode ser considerada um dos primeiros exemplos – embora de modo não intencional – destas que hoje, em tempos de internet, são conhecidas como “fake news” (ou em bom português: as “falsas notícias”).
Lembrei-me hoje do pânico causado pela dramatização de “A Guerra dos Mundos” enquanto percorria supermercados e drogarias no Japão, verificando que papéis higiênicos e lenços de papel haviam sumido das prateleiras: tudo isso motivado pelas falsas notícias disseminadas nas redes sociais a respeito do coronavírus. Coisas do tipo: “como a matéria-prima do papel higiênico é oriunda da China, a importação do produto será reduzida”. Quando, na verdade, a dependência japonesa em relação ao papel higiênico produzido na China é de apenas 2.3%. Bastou, porém, uma “fake news” para que o pânico tomasse conta da “Terra do Sol Nascente”; cuja população já anda suficientemente apavorada (aliás, como todo o planeta está!) com os mistérios que cercam esse novo vírus.
Há de tomar-se bastante cuidado, portanto, com o tipo de informação publicada e/ou compartilhada nas redes sociais. Eu mesmo, outro dia, postei em minha página no Facebook uma foto em que eu usava uma máscara para ir ao trabalho. Meu objetivo, então, era o de retratar como estávamos vivendo e trabalhando em Tóquio com a ameaça do coronavírus. Confesso, porém, que me arrependi da publicação. Tanto que logo excluí a postagem. Isso porque alguns começaram a tecer comentários como “apocalipse” e “pandemia” (sem que fosse ainda oficializada como tal). Outros, até com certa boa intenção, acabaram violando minha privacidade compartilhando a postagem como se fosse um retrato de “todo o Japão”. Enfim, um efeito bola de neve: o medo sendo ecoado até tornar-se uma histeria coletiva. E aqui faço um mea-culpa; pois, apesar da boa intenção (a de falar das novas regras das máscaras no ambiente de trabalho japonês), eu não deveria ter feito tal postagem: que acabou causando um temor exacerbado em quem a leu.
No final de “A Guerra dos Mundos”, narrada por Welles, um micróbio derrota os alienígenas invasores. De modo semelhante, temo que o micróbio das “Fake News” – que também se multiplica sem controle – possa ser mais letal à humanidade do que o próprio coronavírus.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). Em novembro de 2019, foi o vencedor, na Espanha, do 13º Concurso de Microcontos do Festival de Cine Terror de Molins.
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