O Sol

E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu.

E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?

E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues.

Atos 9:3-5

 

Sexta-feira, enquanto dirigia na estrada, seguindo pro trabalho, consciente e observadora, deixei-me surpreender por uma cena majestosa. O sol. O sol inundava a estrada e minha alma. Forte, alto, altivo, desconcertante. Invadia tudo, todos os espaços, fazia doer os olhos, atrapalhava a visão dos motoristas. O sol, como é que o deixamos escapar à memória das emoções? Logo ele, tão majestoso quanto generoso, tão intimidador e tão terno. O sol!

Embasbacada, a única comparação que me veio à mente foi: Deus é como o sol da estrada!

Deus é como o sol da estrada, que tudo preenche e a quem nada escapa. Com seus raios aquece e intimida. Sim, ele intimida, tamanho é seu amor. É impossível permanecer indiferente a ele.

Há quem possa concordar, dizendo: Sim, é ele quem nos guia, ilumina, direciona! Mas não, sua ação não pode ser resumida a apenas isso.

Ele conduz, sim, mas ao mesmo tempo, cega. E parece mesmo que estamos todos sob a pele de Saulo nessa eterna estrada de Damasco, chamada vida. Cegos para que possamos ver. Que contradição bendita essa!

A metanoia de Saulo-Paulo sempre me encantou e comoveu. Por vezes, durante sua leitura, senti essa luz me invadindo. Um homem educado na lei e para cumprir a lei se vê literalmente inundado pela graça. Era necessária sua cegueira, foi momentânea e necessária, era preciso deixar de ver sob a ótica da lei e passar a enxergar a lei máxima do amor. O perseguidor de cristãos agora passava a ser um deles, e talvez o mais exemplar de todos eles, uma imitação muitíssimo fidedigna dEle, do próprio Cristo.

O sol invadira a estrada de Saulo, a estrada, a mente e o espírito. Esse sol que cega, atordoa, constrange, por majestoso e inevitável que é. Ele, o Senhor até então desconhecido, finalmente apresenta-se. E à pergunta do prostrado homem aflito, responde: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”.

Ao ler essa resposta, me ponho a perguntar, se de fato não era Cristo quem a Saulo perseguia. Sim, Ele perseguia amorosa e incansavelmente a Saulo, feito um louco apaixonado. É exatamente essa a visão que tenho dEle. Um louco apaixonado, incapaz de medir esforços para aproximar-se do objeto de seu amor. Um Deus capaz de fazer-se homem, limitando-se à nossa condição para reaproximar-se dos seus, ah, esse Deus só pode ser um Deus de obstinado amor.

O Deus que inunda a estrada por onde nos movemos, quase sempre distraídos e às pressas. O Deus que é a própria estrada e o caminho de volta para nossa essência primeira.

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