Como é bom finalmente poder constatar todas as manhãs que, ao contrário do que pensava, eles não se atrasarão esse ano. Seu perfume já se faz presente em minhas narinas, é como um aroma do Oriente, doce e ao mesmo tempo forte, à semelhança do que será essa sua caminhada, essa travessia. Afinal, o que é o Natal se não a maior travessia da história, ao final da qual, Deus escancara sua humanidade, através de um frágil nenê.
Todas as travessias são difíceis, isso porque para realizá-las quase sempre precisamos nos desvestir de nosso ego e enfrentar corajosamente nossos maiores medos.
Maria está aflita, o coração da mãe de Deus pulsa no compasso da incerteza. Acharão pouso? O cansaço toma conta de José, o caminho que percorrera até ali o provara e à sua fé de inúmeras maneiras. Mas ambos seguem, alavancando forças e esperança na promessa de que juntos trarão o próprio Deus ao convívio com os seus filhos.
Os pés inchados de Maria, seu rosto também inchado denunciam que a hora se aproxima...
O amor insano de Deus Pai também já não consegue esperar mais. É preciso que ele venha, contrariando os podres poderes e toda e qualquer lógica. O amor não é mesmo feito de lógica, sempre pensei.
Como dois refugiados, e de fato o são, Maria e José, o casal escolhido para viver essa bênção e provação segue, e quase que posso ouvir o murmurinho na cidade, quando dela eles se aproximam.
“O que essa mulher grávida faz aqui? A essa hora da noite? Só podem estar doidos! Acaso não sabiam que as estalagens estão cheias? É muita imprudência viajar assim...”
Os caminhos que o amor se propõe a percorrer são mesmo muitas vezes imprudentes, talvez por esse motivo, o caminho que o Eterno tenha traçado para conviver com os seus amados seja assim, tão absurdamente lindo!
Muitas portas ainda serão fechadas até que chegue a hora bendita. Maria ainda sentirá muita dor, seu ventre repleto da graça de Deus em forma humana já não suporta mais o peso da vocação; seu cansaço está mais visível do que nunca.
Ela só quer um lugar onde repousar as costas, onde aliviar os pés inchados. José só quer ter a certeza de ter cumprido com seu papel de pai e marido, levando-a em segurança ao ápice da história redentora.
O que eles sabem, sabem sim, mas aturdidos pela situação esquecem, é que a estrela os segue por onde vão, desde os becos imundos até os palácios suntuosos. O próprio Senhor do Tempo é quem vela por eles.
Por isso, e só por isso, eles chegarão a tempo. A humanidade está a salvo!
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