Uma Copa do Mundo, por ser de curta duração, pode fazer com que uma crônica envelheça rapidamente. Principalmente na fase de mata-mata, em que o fantasma da eliminação começa a espalhar o caos entre os amantes do futebol. Assim, lágrimas e alegrias vão trocando de parceiros, até que sobra apenas um – o highlander a festejar no lugar mais alto do pódio. C’est la vie, diria Zidane.
Mas, independentemente dos rumos que o torneio irá tomar, o fato é que hoje, no dia três de dezembro de 2022, enquanto escrevo esta crônica para enviar ao Jornal em Dia, o Japão celebra um histórico triunfo de seus “garotos samurais”. Ou, melhor dizendo, de seus jovens “samurais azuis”. E não é para menos. Afinal, derrotar as poderosas Espanha e Alemanha, passando em primeiro lugar no grupo, é um feito daqueles para marcar para sempre esses bravos jogadores, representantes de um país onde o futebol está longe de ser considerado um esporte nacional.
Banzai, Nippon!! Viva!!! Foi assim que celebramos – minha esposa, meu filho e eu – os dois triunfos da equipe japonesa contra as poderosas campeãs do mundo. Porque aqui em casa é assim: dois idiomas e três corações sem fronteiras.
Aliás, foi nesta Copa que Endi assistiu a um jogo de futebol pela primeira vez (ou mais ou menos, uma vez que passou o tempo todo correndo de um lado para o outro chutando um balão contra a tevê), ocasião esta que deixou este pai brazuca muito feliz. Não foi exatamente pelo resultado – perdemos para a Costa Rica –, mas pelo maravilhoso momento de estar desfrutando, ao lado de meu garoto, de um esporte de que tanto gosto. Um momento de alegria, enfim, para guardar para sempre no coração.
Um coração que, aliás, pulsa nipo-brasileiramente em meu peito há mais de vinte anos. E que continuará assim, nessa linda e saudável mistura, mesmo se houver o confronto entre Brasil e Japão nas quartas de final (o que é bem possível, em virtude do atual desenho das oitavas). E se isso acontecer, aqui em casa, como disse anteriormente, estaremos os três de mãos dadas pelos dois países: duas pátrias igualmente refletidas no sorriso e nos olhinhos brilhantes do Endi.
Claro, não vou negar que, caso o Japão triunfe, o gostinho vai ser um pouco mais especial para a família Yamada Loureiro. Justamente pelo caráter da surpresa e da superação. Afinal de contas, derrotar a poderosa esquadra brasileira, sempre favorita, é um troféu adicional para todo time de futebol (que digam os camaroneses!). Um feito grandioso, enfim, para se contar a filhos e netos.
Se Gonda, Doan e Asano continuarão derrubando gigantes do futebol, isso não posso prever. Tudo o que sei é que, independentemente dos resultados no torneio, aqui em casa, o Japão e o Brasil seguirão, unidos, celebrando a maior das vitórias: a do amor sem fronteiras.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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