“Isso aqui está parecendo uma creche!”, essa frase dita assim, com a ênfase da crítica, pode soar cruel. Tratava-se de uma atividade de inglês que ministrei a um sexto ano, quando de uma substituição. Era a história do “Color Monster”, comumente utilizada para ensinar sobre cores e emoções em inglês. Aliás, o que deixa essa atividade rica mesmo é essa junção entre um conteúdo regular (cores) e um outro de cunho socioemocional (emoções).
Foi encantador ver os olhinhos atentos ao vídeo que narrava com delicadeza a história da adorável criatura que andava se sentindo confusa sobre seus próprios sentimentos, e que, com a ajuda de uma amiga, passou a organizá-los de modo a saber reconhecê-los e vivê-los sem o peso da angústia.
Quem apenas ouve falar sobre a história do Monstro das Cores ou apenas vê sua ilustração exposta num varal na sala de aula, talvez realmente o imagine absurdamente infantil. No entanto, é impressionante o quanto podemos aprender com ele e ainda trabalhar muito mais do que vocabulário em inglês, as emoções e a forma como nossos pré-adolescentes as vivem.
Não foram poucos os alunos que aproveitaram a oportunidade para relatar que sofrem de ansiedade em algum grau, ou ainda abrirem-se com relação a seus medos. Foi, portanto, uma aula absurdamente humana!
E por essa razão é que me pergunto: quando foi que perdemos nossa sensibilidade? Quando permitimos que o mundo adulto talhasse nossa imaginação e se impusesse como um fardo, que não permite pequenas distrações ou alegrias? Quando foi que substituímos a beleza das cores todas pelo marasmo da folha pautada? Ou, ainda, quando a atividade lúdica deixou de fazer parte da vida e do aprendizado de nossas crianças e adolescentes?
A ludicidade contribui e muito para o processo de aprendizagem; quando a abortamos de nossa prática deixamos um pouco de ser humanos. Se todos soubessem o quanto é enriquecedor demorar a crescer, no sentido de permanecermos inventivos e atentos e curiosos como só as crianças são...
Essa reação assim tão cruel a uma atividade tão bem aceita pelos alunos parece-me uma contradição. Na verdade, não, ela só mostra o quanto podemos ser indiferentes ao outro, às suas necessidades, e simplesmente criticar aquilo que não compreendemos.
Quisera eu ter minhas salas de aula sempre repletas de varais multicoloridos! Nem sempre é possível... Mas seguir acreditando numa educação transformadora, sim, é, e isso a despeito de todas as críticas.
Meu sonho é que um dia as escolas se pareçam mais com creches do que com fábricas ou prisões, por isso, encaro a crítica com a qual iniciei esse texto como uma constatação elogiosa. Que haja lugar para a cor, para o encanto e para a sensibilidade em nossas escolas sempre!
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