Vou adentrar uma seara espinhosa: a crítica ao construtivismo, esse pseudométodo pedagógico que se tornou dogma sacrossanto de grande parte dos professores. Não estamos diante de uma proposta esquecida, mas de um credo pedagógico que, como erva daninha, se entranhou nas paredes da escola e sufocou alternativas.
O curioso é que, nesse cenário, quem ousa questionar o construtivismo é frequentemente marginalizado, acusado de “retrógrado” ou “tradicionalista”, como se criticar o modismo fosse um pecado pedagógico. Mais do que uma simples tendência, o construtivismo consolidou-se como um agente do neoliberalismo, defendido por cientistas da educação comprometidos com agendas e financiamentos pouco éticos, transformando a escola em espaço de experimentações ideológicas que afastam a educação de sua função emancipadora.
Essa prática é frequentemente apresentada como uma proposta pedagógica progressista, é, na verdade, uma construção teórica que mascara sua natureza elitista e excludente. José Carlos Libâneo, em seu contundente ensaio “Desconstruindo o Construtivismo”, denuncia com rigor acadêmico as inconsistências dessa abordagem, revelando que ela não apenas falha em garantir o aprendizado, como também ignora as condições concretas da escola pública brasileira.
Segundo Libâneo, o construtivismo “não é uma teoria pedagógica, mas uma teoria psicológica do desenvolvimento” e, portanto, não oferece diretrizes claras para a prática docente. Ao transferir a responsabilidade do aprendizado exclusivamente para o aluno, o método desconsidera as desigualdades sociais e culturais que marcam o cotidiano escolar. Como afirma o autor, “a ênfase no aprender por si mesmo ignora que os alunos das camadas populares não têm acesso aos bens culturais que lhes permitiriam construir conhecimento de forma autônoma”.
Essa pedagogia, que se pretende libertadora, acaba por reforçar a exclusão. Ao não reconhecer o papel ativo do professor como mediador do conhecimento, o construtivismo desvaloriza a didática e a sistematização do ensino. Libâneo alerta que “a ausência de uma proposta curricular clara e de objetivos pedagógicos definidos transforma a sala de aula em um espaço de improvisação e ineficácia”.
Além disso, o construtivismo se alinha a uma visão tecnocrática da educação, promovida por organismos internacionais que impõem modelos pedagógicos desvinculados da realidade brasileira. Como destaca Libâneo, “a importação acrítica de modelos estrangeiros ignora as especificidades culturais, sociais e econômicas do Brasil, contribuindo para a manutenção da desigualdade educacional”.
A crítica de Libâneo é também uma convocação à resistência intelectual. Ele propõe uma pedagogia crítica, comprometida com a transformação social e com a valorização do trabalho docente. Para ele, “a educação deve ser um ato político, voltado para a emancipação dos sujeitos e não para a adaptação a um sistema excludente”.
Em suma, o construtivismo, longe de ser uma solução, é parte do problema. Sua pretensa neutralidade esconde um projeto pedagógico que favorece os já privilegiados e abandona os que mais precisam da escola como espaço de formação integral. Como bem conclui Libâneo, “é preciso desconstruir o construtivismo para reconstruir uma educação verdadeiramente democrática e eficaz”.
Paulo Bresssane é historiador, pedagogo e mestrando em Políticas Públicas em Educação
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