Em julho deste ano, o Japão começou a emitir novas cédulas do iene, a sua moeda oficial. O objetivo, segundo o Governo e o Banco do Japão, é o de evitar a falsificação, uma vez que as novas notas fazem uso de uma tecnologia de ponta que impede que os criminosos (os pés de chinelo, digo, não os de gravata) consigam copiá-las.
Ainda vai levar algum tempo, é claro, para que as antigas cédulas saiam de circulação. O que já está gerando uma certa confusão, diga-se de passagem. Por exemplo, outro dia, entrei numa loja de donuts, e, por sorte, ainda havia uma cédula antiga em minha carteira: foi como consegui pagar, pois a máquina do estabelecimento ainda não aceitava as novas.
Por outro lado, em uma estação de trem, as máquinas de bilhetes só aceitavam as novas cédulas. De modo que, por precaução, temos que andar mesmo é com um pouco das antigas e das novas no bolso para não ficarmos na mão.
A maior polêmica, porém, tem sido a nova nota de dez mil ienes (que corresponde a aproximadamente trezentos e setenta reais), que traz estampada a imagem de Shibusawa Eiichi (1840-1931), um famoso empresário conhecido como o “pai do capitalismo japonês” e que, entre os anos de 1869 e 1972, ocupou o cargo de Okura Daijo (oficial do Ministério das Finanças). Por suas realizações no campo econômico – entre outras coisas, a criação de empresas de economia mista e dos modernos bancos japoneses –, Eiichi recebeu o título de “Barão” no ano de mil e novecentos.
Bom, com tal currículo, por que então o rosto do Sr. Eiichi na nova cédula não tem sido bem aceita pela população? Para compreendermos o motivo, temos de falar primeiramente de um outro costume japonês: o de presentear os noivos com dinheiro durante a cerimônia de casamento.
Aqui, na Terra do Sol Nascente, nada de dar liquidificador ou panelas, como é (ou era) o costume brasileiro. Aqui, a tradição é darmos uma soma num bonito envelope para ajudar a nova família a começar a vida. Particularmente, acho esse costume maravilhosamente prático: porque assim o casal pode usar o dinheiro para comprar o que necessita, em vez de ter de aceitar uma série de bugigangas, muitas vezes inúteis.
Muito bem: geralmente o dinheiro presenteado é uma nota (ou notas) de dez mil ienes. E aí é que entra o problema da nova cédula. Comenta-se que o Sr. Eiichi era um homem de “muitas amantes” – de modo que seria de “mau gosto” presentear algo com o rosto do empresário estampado para pessoas que estão começando uma vida a dois.
Pobre rico Sr. Eiichi... Criticado e amaldiçoado pelo julgamento popular. Que hipocrisia! Quem nunca teve um deslize que atire a primeira cédula. De minha parte, penso que maldição mesmo – para recém-casados ou não – é, nestes tempos de inflação japonesa, não ter um “senhor Eiichi” no bolso.
***
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
***
Siga o JORNAL EM DIA BRAGANÇA no Instagram: https://instagram.com/jornalemdia_braganca e no Facebook: Jornal Em Dia
Receba as notícias no seu WhatsApp pelo link: https://chat.whatsapp.com/Bo0bb5NSBxg5XOpC5ypb9D
0 Comentários