Na semana passada, em virtude de uma infecção, tive de ir ao oftalmologista. Na ocasião, além do rápido e eficiente atendimento, o que mais me chamou atenção foi o esforço da enfermeira (não tanto do médico) para tentar explicar-me em inglês sobre a aplicação dos colírios e pomadas necessárias para o tratamento. E falo esforço, pois ela estava literalmente buscando palavra por palavra em seu celular para orientar-me – e sabemos como é um trauma para a maior parte dos japoneses ter de falar no idioma de Shakespeare. Ela, porém, não desistiu: pois tinha ali um claro objetivo – o do bem-servir. Uma característica, aliás, da maioria dos servidores públicos no Japão: sempre atendendo a população da melhor forma possível.
Lembro-me de que, em 2013, fui a uma reunião da comunidade brasileira na província de Shizuoka. E lá, em vez de propostas racionais, o que mais escutei foi reclamação... sem sentido, vale frisar. Coisas do tipo: “ah, as escolas japonesas não dão o devido apoio aos filhos de estrangeiros”. Ora, poupem-me. Trabalhei por um ano como professor assistente de língua inglesa em uma escola PÚBLICA em Tóquio e posso testemunhar que a referida reclamação não tem fundamento: pois, sim, as escolas japonesas fazem de tudo para atender bem os filhos de estrangeiros. Recordo que havia uma criança chinesa que tinha problemas com a língua japonesa, e a escola contratou até uma professora para ajudar a criança nas tarefas. Eu mesmo, certa vez, fui chamado para explicar uma regra escolar para um casal de brasileiros, e assim tentar ajudar o filho destes, que estava com problemas de adaptação. Pois bem: sabem o que aconteceu? Ficamos, o professor japonês e eu, esperando uma tarde inteira pelos pais da criança, que não deram o ar da graça. Depois, soube que a mãe apareceu no dia seguinte, sem se desculpar pela falta ao compromisso e ainda reclamando que o filho dela tinha de limpar a sala de aula com os demais colegas (o que é uma obrigação de todo estudante no Japão, seja nacional ou estrangeiro).
Observando essa mania de queixumes que possuem muitos de meus compatriotas por aqui, a vontade que tenho é de dizer aos tais reclamões: voltem para o Brasil e desfrutem dos maravilhosos serviços sociais do “país do Carnaval”. Porque – e façam-me o favor – sabemos que nenhum lugar do mundo é paraíso, mas é inegável que os servidores no Japão tentam atender o estrangeiro (mesmo com as dificuldades impostas pelo idioma) da melhor forma possível. Há pessoas grosseiras? Sim, como em qualquer lugar do planeta. Mas o importante é que, no final das contas (que não são caras, aliás), você é atendido e não tem de mofar (ou morrer), por exemplo, em uma fila de hospital.
Eu, particularmente, que não sou masoquista, não troco o Japão, em termos de serviços públicos, por nenhum lugar do planeta azul. Ou somente, quem sabe, pela nave espacial do Elon Musk...
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil esquecido”, lançado pela Editora Folheando (Pará) e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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