O amor é todo ouvidos

Nós temos necessidade de sermos ouvidos. É uma carência natural de atenção, eu acho É o desejo subentendido de estar no outro, fazendo-o participante de nossa vida, mover sua atenção para nós, colocá-lo em nosso lugar, fazê-lo sentir o que sentimos, porque somos misteriosamente ligados.

Há alguém que sabia muito profundamente deste nosso anelo e, além de saber, o atendia com maestria: Jesus. Sendo ele o próprio Deus encarnado há quem ridicularize esse seu método: ele perguntava.

Ainda que Ele soubesse e a fundo tudo aquilo que afligia aquelas almas, ele fazia questão de inquiri-las. E eu posso imaginar com que olhar doce e terno é que o fazia.

E esse seu ato simplesmente desarmava quem quer que fosse, porque ele demonstrava e de forma prática o quanto ele se importava com elas.

Ele não dizia o nosso frívolo e vazio de intenções e significado: Tudo bem? Nem esperava que a resposta viesse nesse mesmo tom evasivo e pseudocortês.

Ele ansiava por ouvir o que quer que fosse, todas as verdades, feridas e desalentos da alma. E ao ouvi-las, não ficaria indiferente. Ele desejava desesperadamente, curá-las.

O exercício do ouvir... tão necessário hoje em dia, quando nos limitamos a falar e das piores formas. O contato humano tem se limitado demais, e o que já era distante e frívolo, agora beira o irreal.

E quem é que se dispõe a ouvir? Quem é que ousa falar?

Vivemos dias de comunicação veloz. Será mesmo? Receio que a qualidade desta comunicação seja das mais precárias. Mas, talvez seja eu a retrógrada e antiquada.

Eu sempre fui mesmo de sentir saudade das coisas, até das que não vivi. Tenho uma alma meio melancólica e um espírito que exige de mim doçura e cuidado. Isso por vezes me aborrece, porque não me habituo facilmente com aquilo que de alguma forma viola minha essência. Eu gosto mesmo é de conversar de perto, olhando nos olhos, sentindo o outro, que de tão próximo, passa a ser uma extensão de mim mesma. Ouvir o outro, muitas vezes como um eco de nossa própria alma, partilhar as dores do outro, as pequenas alegrias, medos, sonhos e vergonhas. Porque é disso que somos feitos e ninguém foge às delícias e desgraças de ser humano.

Jesus, em sua face humana, o sabia bem. Ele experimentou dessas sensações todas que nos fazem tão extraordinariamente humanos. E por isso, Ele fazia questão de dedicar seu tempo a ouvir e se compadecer das pessoas. Imagino as palavras saindo de sua boca, algumas trêmulas, outras balbuciadas, todas juntas formando uma furiosa sinfonia que arrebatava o coração do Deus-homem. E Ele, movido pelo amor, que sempre foi sua essência e missão aqui, respondia em misericórdia. O amor as salvava de si mesmas.

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