Em tom enfático e contundente, está se tornando bem comum campanhas dessa envergadura Brasil afora. Numa ou noutra cidade, se vê placas, faixas, panfletos, outdoors ou mesmo agentes públicos entoando o slogan: “Não dê esmolas!”.
O hit dos anos noventa dos roqueiros do Skank entoa uma realidade que vemos ao andar por aí: “Uma esmola pelo amor de Deus, Uma esmola, meu, por caridade; Uma esmola pro ceguinho, pro menino; Em toda esquina, tem gente só pedindo [...]”. Melodia que retrata a condição de um país!
Essas campanhas fariam muito sentido se o sentido dado a elas fosse a compreensão de que ninguém deveria viver ou receber esmolas. Mas não é isso!
Na prática, essas campanhas são carregadas de um tom moralista, conservador e repressor, em alguns lugares qualquer prática caritativa é inclusive criminalizada, reproduzindo a máxima inverdade de que a esmola desestimula o trabalho ou que a pessoa, ao receber migalhas, se acostumaria nessa vida ou qualquer outro disparate fora de contexto...
A realidade em si não é não querer trabalhar, mas termos trabalhos mal remunerados, extenuantes e insuficientes para todos, práticas laborativas que, por vezes, não provêm as necessidades de subsistência; o fato é termos condições de miserabilidade sustentada e reproduzida pela própria sociedade, a partir da manutenção da estrutural desigualdade social, econômica, racial e de gênero, o que se soma a abissal concentração de renda que se acumula no país.
O problema não é a esmola em si, mas sim ela não ser conduzida e ofertada para afagar o ego de quem a concede em ocasiões especiais as pessoas ou grupos específicos, especialmente como meio de elevar o status socialmente reconhecido.
Longe disso, nossa reação face a essas campanhas talvez fosse entoar coros de que quem concede esmolas, na verdade, é próprio Estado. A começar pela própria condição em manter pessoas que vivem pelas ruas a suplicar por qualquer forma de ajuda e caridade; em reconhecer o desinvestimento público e sucateamento de serviços essenciais aos cidadãos brasileiros; a manifestação da pura incompetência na gestão de serviços públicos, especialmente àqueles fundamentais a condição humana, conclamando a excelência da privatização...
Não é o Estado que deveria dizer o que cada cidadão faz com seu suado dinheirinho: se deseja ou não pagar um lanche a um famélico transeunte ou se acata com rigor os dizeres dessas campanhas!
Em contraponto e no horizonte de uma sociedade mais humana e solidária, deveríamos promover ações de partilha. Fomentar que as pessoas carregassem consigo, por exemplo, um lanche na bolsa ou uma garrafinha com água para aliar o calor intenso a quem padece pelas ruas, ou mesmo algum trocado que possa ser doado a quem não sabe muitas vezes a quem pedir...
É fato que ninguém deveria pedir ou viver de esmolas.
Não porque o Estado exige, faz campanhas e até reprime quem ajuda alguém, mas sim porque teríamos uma sociedade suficientemente digna que garantiria condições de sobrevivência a todas as pessoas. Talvez um dia tenhamos isso!
Enquanto isso, seguiremos fazendo a nossa parte – como achamos que devemos – acatando ou ignorando essas campanhas, que mais inflam discursos moralistas do que enfrentem concretamente o que leva as pessoas a pedir esmolas!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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