Por que ainda acreditamos na encenação ritual de neutralidade institucional? Por que o povo insiste em ver o Supremo Tribunal Federal como Vestal da República, quando seus atos revelam outra face – a da manutenção da ordem burguesa?
Na Roma Antiga, as Vestais eram mulheres consagradas à deusa Vesta, encarregadas de manter aceso o fogo sagrado do templo. Eram símbolo de pureza, vigilância e sacralidade. Hoje, o STF tenta vestir essa toga simbólica: a de guardião da Constituição, de defensor da legalidade. Mas o fogo que arde ali não é o da justiça popular – é o da estabilidade do capital.
Quando os golpistas mambembes e rastaqueras foram investigados e julgados, não foi por atentarem contra a democracia em si, mas por ameaçarem a ordem econômica. O risco não era apenas interno: tratava-se de problemas para a ordem financeira do capital, vistos com preocupação para os olhos internacionais. E o Supremo, longe de ser arauto da Constituição, mostrou-se como zelador da engrenagem que sustenta privilégios.
Ali dentro, decisões são tomadas contra pisos salariais de professores, enfermeiros, servidores. Ali se julga com frieza técnica que o orçamento não comporta dignidade. Ali se confabula com poderosos, se janta com banqueiros, se negocia nos bastidores. Não são Vestais – são operadores de um poder que subjuga os interesses do povo.
O caso do Banco Master, como exposto no vídeo do canal arvro, escancara esse teatro. Um escândalo bilionário, uma liquidação extrajudicial, um rombo de R$ 41 bilhões coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos. E onde estavam os olhos da supervisão estatal? Onde estavam os guardiões da legalidade?
Daniel Vorcaro, o empresário por trás do escândalo, circula com desenvoltura entre os salões do poder. O vídeo não apenas denuncia – ele revela. Mostra como o sistema financeiro se blinda, como os trambiqueiros se tornam influentes, como o Estado se ajoelha diante do capital.
Vivemos tempos em que o fogo sagrado da justiça foi sequestrado. Não arde mais em nome do povo, mas em nome da ordem. E essa ordem é burguesa, excludente, violenta. O povo precisa abrir os olhos. Precisamos romper com a ilusão de que há neutralidade onde há poder. Porque enquanto acreditamos que o Supremo é Vestal, o altar da justiça continua sendo usado para sacrificar os direitos de quem mais precisa.
Paulo Bresssane é historiador, pedagogo e mestrando em Políticas Públicas em Educação.
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