Entre os dias treze e vinte e um de setembro, Tóquio sediou o Mundial de Atletismo. E, além dos recordes batidos, um dos momentos mais marcantes do evento foi protoganizado por um brasileiro: Caio Bonfim, vencedor dos vinte quilômetros da Marcha Atlética.
E o que mais chamou a atenção dos japoneses em relação ao nosso maratonista, dotado, além do talento, de uma grande simpatia e humildade, foi um fato inusitado ocorrido na prova por ele vencida: a perda de sua aliança de casamento.
Com o sorriso da vitória ainda misturado a uma certa dose de aflição, Bonfim deu uma entrevista para a tevê japonesa falando da perda do objeto possuidor, claro, de um grande valor sentimental para ele. Foi o que bastou para que, imediatamente, o público, os demais atletas e os trabalhadores do evento se mobilizassem na busca do objeto perdido.
Mas foi um turista estrangeiro o responsável para que a aliança retornasse às mãos – mais precisamente ao dedo – de nosso maratonista campeão. De passagem por Tóquio, no entanto, o turista apenas pôde entregar o achado à polícia quando retornou a Osaka, cidade na qual estava hospedado. E de lá, a polícia prontamente contactou os organizadores do evento em Tóquio, para que a aliança fosse devolvida ao seu proprietário.
E foi assim, portanto, que a história de Bonfim em Tóquio – além, claro, da medalha de ouro conquistada – teve um final merecidamente feliz.
Dessa vez, foi um turista o responsável pela recuperação do objeto, mas há de se ressaltar também duas coisas: o eficiente trabalho da polícia e a honestidade do povo japonês quando se trata de objetos perdidos. Pois aqui, posso afirmar com tranquilidade, o serviço de “achados e perdidos” (eu diria “perdidos e achados”) realmente funciona.
Outro dia, conversando com um amigo sul-africano, ele contou-me algo que vivenciou alguns anos atrás. Ele havia bebido para além da conta, e, nas andanças trôpegas típicas de todo bêbado, acabou esquecendo sua carteira em um banheiro público de Tóquio (uma das cidades mais movimentadas do planeta!).
Pois bem, na manhã seguinte, ainda com uma baita ressaca, meu amigo desesperou-se e começou a percorrer todos os lugares pelos quais havia passado, quase certo de que havia perdido para sempre a preciosa carteira. Para a sua surpresa, porém, ao adentrar o banheiro público próximo ao bar que visitara na noite anterior, lá ele avista: a bendita carteira. Estava intacta (com dinheiro e tudo o mais), vale frisar, e provavelmente mantida no mesmo lugar em que ele, em seu desvario alcoólico, deixara na noite anterior. De modo que o meu amigo concluiu a história dizendo-me: “Só no Japão mesmo...”.
É, amigo, concordo em gênero, número e grau. Neste país, a honestidade e a eficiência são tão culturais que fariam até mesmo o químico francês Antoine Lavoisier reformular sua célebre frase, dizendo: “No Japão, nada se perde, nada se transforma... porque tudo funciona”.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2024, seu livro obteve o Primeiro Lugar no Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) da UBE-RJ. Também em 2024, foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest”, nos Estados Unidos. É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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