A desaceleração da economia brasileira não é um acidente de percurso, tampouco fruto de incompetência pontual. É consequência direta de um modelo de gestão que, embora mude de rosto, mantém a mesma espinha dorsal: o neoliberalismo. Esse sistema, que privilegia o mercado em detrimento do Estado, tem como pilares o corte de gastos públicos, a contenção de investimentos sociais e a submissão da política econômica aos interesses do capital financeiro.
O chamado “arcabouço fiscal” é a versão atualizada dessa lógica. Apresentado como solução técnica para garantir responsabilidade nas contas públicas, ele funciona, na prática, como uma camisa de força que impede o Estado de investir em infraestrutura, saúde, educação e políticas de geração de emprego. Ao limitar o crescimento dos gastos à arrecadação, o arcabouço transforma o orçamento público num exercício de contenção, não de transformação.
Some-se a isso o volume trilionário da dívida pública, alimentado por juros elevados e pela rolagem constante dos títulos. Essa dívida não é apenas um número astronômico: ela é um mecanismo de transferência de recursos do Estado para os rentistas. Para manter a confiança do mercado, o governo paga juros altíssimos, o que encarece o crédito para empresas e famílias, estrangula o investimento produtivo e obstrui a capacidade de compra da população. O resultado é uma economia travada, na qual o consumo cai, o desemprego persiste e a desigualdade se aprofunda.
É nesse cenário que se revela uma dura verdade: apesar da diferença civilizatória entre Lula e Bolsonaro – um democrata comprometido com o pacto social, o outro um embuste autoritário – ambos, sob pressão do mercado e da institucionalidade econômica, acabam praticando políticas semelhantes. Paulo Guedes e Fernando Haddad, embora em espectros ideológicos distintos, operam sob o mesmo manual: contenção fiscal, juros altos, metas de superávit e subordinação ao sistema financeiro.
Essa convergência não é coincidência, é estrutura. O modelo neoliberal é tão entranhado na institucionalidade brasileira que mesmo governos com vocação popular se veem obrigados a negociar com seus limites. E quem paga essa conta é a classe trabalhadora, que vê seus direitos comprimidos, seus salários corroídos e suas perspectivas de ascensão social cada vez mais distantes.
A desaceleração da economia, portanto, não é apenas um fenômeno técnico – é um sintoma de um modelo que precisa ser superado. Enquanto o Estado for refém do mercado, o Brasil continuará andando em círculos, sacrificando seu povo em nome de uma estabilidade que só beneficia os de cima.
Paulo Felipe Bressane Cruz é professor, licenciado em Pedagogia pela FAAT.
***
0 Comentários