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SUB-VERSÃO

Morro, do verbo morrer

O morro acorda cedo. Os muitos sons denunciam que a vida segue sendo vida, independentemente do cenário. Um cara funcionando a moto pra sair, a criança chorando a despedida da mãe – vai ficar com a vizinha pra ela ir trabalhar. O outro trocando o gás, que sempre acaba nas horas mais inoportunas, logo quando ia fazer café. O cheiro de café no ar desperta os sentidos pra mais um dia.

Os dias não são fáceis no morro. Nenhum deles. Mas há aqueles em que a própria experiência humana é posta à prova. Há aqueles em que o próprio direito à vida sofrida do morro é negado.

Naquela manhã, igual a tantas outras, ele não esperava pelo pior. Menino esforçado, trabalhador diligente, madrugou pra descer o morro e oferecer sua força de trabalho aos sinhozinhos modernos. Gente que nunca subiu o morro, que nunca experenciou a vida na favela. Gente que depende da favela pras suas atividades mais básicas; gente que ainda assim não reconhece a humanidade pulsante da favela.

Não voltou. O caramelo vira-lata que adotou há duas semanas não emitiu nenhum tímido latido, ao ouvir seus passos exaustos se aproximando do portão. Nem se ouviu o riso estridente de sua vozinha, quando da chegada do neto mais que querido.

A mãe, já falecida, a quem o menino bonito dos olhos amendoados obedecia cegamente, teve, naquele dia, seu conselho mais recorrente desrespeitado: não fique na rua, meu filho, que não é lugar pra você!

Ficou na rua, está ainda na rua. Ao seu lado, muitos outros corpos estendidos. Gente de quem não sabemos sequer o nome, muito menos a história. Gente trabalhadora feito ele. Números no noticiário tenebroso daquele dia. Notícia. Apenas isso. “Não é Gaza. É Brasil”.

Um Rio de sangue desce o morro; seu gosto metálico, no entanto, não chega à boca dos patrões, tão pouco às dos governantes de quem partiu a ordem de morte. A pena de morte foi instituída em nosso país? Desde quando?

Cristo chora seus filhos muito queridos, ninguém ouve seu lamento. Seus soluços são sufocados pelo som de tiros.

Na favela, outrora barulhenta, agora jaz o silêncio incomum que a morte injusta costuma impor. A sombra da vida interrompida abrupta e violentamente percorre o morro, e é como se o dia se negasse a continuar sendo dia, e sol, sempre tão majestoso na cidade maravilhosa se recusasse a brilhar sobre corpos estendidos na rua.

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