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Crônicas de um Sol Nascente

Mister M

Quem viveu os anos noventa no Brasil deve lembrar-se de que, no final do “Fantástico”, da Rede Globo, a atração principal era o “Mister M” – um mascarado que revelava todos os truques de seus colegas ilusionistas. Com o tempo, descobrimos que se tratava do mágico norte-americano Val Valentino; o qual escondia a identidade para proteger-se das ameaças que possivelmente receberia dos colegas de profissão, insatisfeitos com o engraçadinho que desejava tirar-lhes o ganha-pão.

Recordei-me do Mister M há alguns dias, quando recebi de um leitor da coluna o comentário de que “possuía uma outra visão do Japão”. Senti-me, confesso, como o próprio mágico mascarado: estragando a imagem “zen” que muitos brasileiros – e ocidentais de um modo geral – possuem da “Terra do Sol Nascente”.

Sorry, caros leitores, mas quero anunciar que vou continuar entregando os truques e estragando a magia. Pelo simples fato de que... moro no Japão. O que significa que meu contato com o país é cotidiano... e não uma viagem de alguns dias. Digo isso porque me causa até um certo riso quando vejo um ocidental que, dando umas voltas por Tóquio e Quioto, retorna a seu país querendo ensinar sobre o Japão. Como, certa vez, assisti na tevê a uma “celebridade” fazendo um especial sobre a cultura japonesa somente pelo fato de passar por aqui alguns dias. Ora, diabos! Se eu, que moro há vinte anos e convivo há quinze com uma família japonesa, jamais tive a coragem de afirmar que conheço o país...

Não, longe de ter tal prepotência! Tudo o que faço em minhas crônicas é registrar o meu ponto de vista como estrangeiro em relação ao Japão contemporâneo: o de um povo que, infelizmente ou não, está mais para “Wall Street” do que para “O Último Samurai”. Porque este foi o Japão que comecei a conhecer em 2001, quando aqui cheguei para estudar: o da competitividade e da tecnologia. Um Japão que frequenta mais o McDonald’s do que as cerimônias de chá. Outro dia, aliás, vi até uma cena interessante sobre isto: um colega professor, de nacionalidade inglesa, explicava a uma jovem japonesa todos os aspectos da cerimônia de chá. Percebem o drama? Os estrangeiros sabem mais sobre cerimônias de chá do que os próprios japoneses! E isso, pasmem, é mais comum do que se pensa.

Sendo assim, de minha parte, tudo o que faço é tentar mostrar esse Japão, digamos, diferente do tradicional – vivo e em constante transformação, enfim. Agora, se estrago a magia falando de temas do tipo “japoneses sem teto” e “hambúrgueres mais populares que sushi”, de novo me desculpem: mas não posso escrever sobre o cotidiano japonês usando os filmes de Kurosawa.

De modo que continuarei chocando e bancando o Mister M em minhas crônicas. De vez em quando, porém, para não ferir muito o olhar sonhador de meus leitores, prometo escrever sobre um Japão que ainda mantém a magia: um mundo povoado por princesas e honoráveis guerreiros. Sim, prometo escrever mais sobre a espiritualidade nipônica. Somente vos peço mais um tempo para aprofundar minhas pesquisas a respeito. Quem sabe, começando pela Disneylândia de Tóquio...

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

 

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