Taylor Swift? Que nada! Aqui no Japão quem leva multidões a seus concertos é uma moça de longos cabelos azul-turquesa chamada Hatsune Miku. Moça, eu disse? Bem, não exatamente. Isso porque Hatsune é na verdade uma vocaloid (uma aglutinação das palavras em Inglês “vocal” e “android”) – um software desenvolvido para cantar, por meio de um processo que reproduz a fala de um ser humano real. No caso de Hatsune, sua voz é a mesma da dubladora japonesa Saki Fujita – que, claro, acabou também ficando famosíssima em consequência do estrondoso sucesso da referida vocaloid.
E tal sucesso é para tanto? Bom, pergunte isso à legião de fãs de Hatsune, a cujo show tive oportunidade de assistir dia desses na tevê. E lá estavam eles, os otaku – jovens, ou nem tanto assim, fanáticos pela cultura pop nipônica, principalmente mangás (revistas em quadrinhos) e animês (desenhos animados). Sim, lá estavam eles, os alucinados fãs de Hatsune, erguendo seus celulares como se fossem pendões e cantando os sucessos de sua estrela virtual. E, observando aquela cena, aparentemente tão normal neste mundo contemporâneo tecnológico, veio-me à lembrança a famosa passagem bíblica, em Êxodo, na qual o povo hebreu, sentindo-se perdido durante a ausência de Moisés (que fora receber os dez mandamentos no Monte Sinai), pede a Arão que lhes faça um ídolo para adorar. Foi quando Arão, fundindo o ouro que possuíam, fez um bezerro, a quem o povo terminou por oferecer holocaustos violando os mandamentos de Deus.
Meu conhecimento a respeito das Sagradas Escrituras não é lá grande coisa, mas sou da opinião de que o Antigo Testamento tem acertado em cheio sobre o que anda acontecendo neste cambaleante planeta azul. Porque, afinal de contas, o que é o nosso mundo tecnológico senão um gigantesco “bezerro de ouro”. Somos todos otaku elegendo nossos ídolos virtuais para adorar: noite e dia grudados na tela de um celular e/ou de um computador. E, nesse processo, vamos perdendo a conexão com outros humanos, a ponto de preferirmos interagir com um software do que com seres de carne e osso.
Já há, inclusive, no quesito “vida a dois”, aqueles que se casam com hologramas (projeções de imagens tridimensionais)! O japonês Akihiko Kondo é um destes. Um autoproclamado fictossexual – que possui desejos e paixões por personagens fictícios –, Kondo casou-se com um software. E a eleita? Claro, de novo ela: Hatsune Miku. Acredito até que Kondo não foi o único a levá-la “para o altar”. Se bobear, Hatsune Miku já deve estar envolvida em um escandaloso caso de poligamia. E haja pensão alimentícia para a desejada vocaloid!
Mas a verdade é que, taras fictossexuais à parte, Hatsune é mesmo uma ideia fenomenal, principalmente do ponto de vista dos chefões do show business. Afinal, reflitam comigo: uma cantora que não faz exigências, não engravida, não se droga, não se deprime, não tenta cometer suicídio e ainda atrai milhões para o seu show? Ora, um verdadeiro achado comercial, para dizer o mínimo!
O problema vai ser quando todos os maridos otaku da Hatsune, achando que tem direito a uma fatia dos lucros, passarem a contratar advogados... estes, sim, perigosamente reais.
***
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
***
Siga o JORNAL EM DIA BRAGANÇA no Instagram: @jornalemdia_braganca e no Facebook: Jornal Em Dia
0 Comentários