Marchando em Jesus

Eu estranho a marcha, essa que acontece todos os anos e reúne milhares, se não, milhões de evangélicos. Eu estranho até mesmo o termo “evangélico”, tão belo em seu significado original e tão deturpado atualmente. Mas não ousaria jamais julgar quem quer que seja com relação à sua crença. Eu questiono a marcha. O que ela significa afinal?

Uma demonstração de fé pública? Um evento comercial? É, eu estranho a marcha, eu estranho as marchas. Talvez porque eu tenha desde sempre uma forte tendência à solitude. Talvez também porque meus encontros com Ele tenham se dado sempre em momentos de solidão necessária e salutar.

Na maioria das vezes, nosso encontro se dá na quietude de mim mesma, a sós com Ele, nEle, em Seu silêncio. E marchar fica sendo então só uma consequência.

Eu fico imaginando Cristo na marcha. E essa me é uma visão estranha, confesso. Imagino mesmo que, talvez em sua euforia, as pessoas nem o reconhecessem. Aliás, e diferentemente de muitos, Ele não fazia mesmo a menor questão de chamar a atenção, era um homem de triste figura, mal vestido, é certo que estaria à margem da marcha. Sua missão não estava voltada para si mesmo, mas única e exclusivamente para revelar seu Aba, fazê-lo conhecido. E ele a cumpria de forma passional. E é estranho pensar que o Senhor da marcha, a quem ela supostamente é dedicada passasse despercebido em meio à multidão.

Eu também estou e me vejo à margem da marcha, ao menos dessa marcha. Eu não tenho pressa, não meço a pressa, encaro a marcha e o tempo como complementares. Aliás, o tempo pro Senhor da marcha é mero detalhe insignificante. E nessa marcha diária, pouco importam mesmo os tropeções, as quedas. Ele está ciente de todos eles e não é nossa pretensiosa autoavaliação que conta ao final de tudo.

Marchar para Ele talvez seja mesmo tão natural quanto parece ser respirar, uma vez que nossa existência se dá e se move nEle, e como diria o teólogo Paul Tilich, todas as coisas convergem para Ele, o Universo todo, cada átomo se movimenta em sua direção. A marcha é a vida! A vida nEle, e daí a necessidade da alteração da preposição. Não se trata de uma marcha para Jesus, no sentido de “em sua homenagem”, mas uma contínua marcha nEle e para Ele, como finalidade maior. Paulo entendia bem disso. Não era ao acaso que ele assina suas cartas com a expressão “nEle”. Não, não era mera saudação estilizada. Ele sabia que sua existência estava pautada e sustentada por Ele, em quem todas as coisas existem e se movem. Admitia sua absoluta insuficiência, aceitava de bom grado a total dependência dEle. É, isso me leva a crer que Paulo, se nosso contemporâneo, não compareceria à marcha.

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image