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Crônicas de um Sol Nascente

Lágrimas de prata

Uma medalha olímpica, seja de qual for a cor, é motivo de júbilo para quaisquer esportistas, certo? Não para os judocas japoneses. Pelo menos, foi o que pude verificar nesta e em Olimpíadas anteriores: quando os atletas nipônicos são derrotados em uma final de judô, eles literalmente se curvam diante das câmeras e, chorando, pedem desculpas pelo suposto “fracasso”.

É verdade que, em toda competição esportiva, a medalha de prata sempre foi menos celebrada que o bronze. Quem não se lembra de um macambúzio Lionel Messi recebendo a medalha pelo segundo lugar na Copa de 2014? Uma reação natural do craque, diga-se de passagem, visto que a prata deve deixar mesmo um atleta de ponta com aquela sensação melancólica de “quase cheguei no topo do pódio”. Não obstante, acho que, no caso do judô japonês, esse sentimento já é uma espécie de autoflagelação: oriunda, a meu ver, de uma busca exagerada pela perfeição, tão própria da cultura nipônica; mas que pode, ao final, tornar-se perigosa em mentes tão jovens como a dos atletas em questão.

De modo que tenho uma certa compaixão das lágrimas dos jovens judocas japoneses. E espero, sinceramente, que eles possam ter o apoio de amigos (os verdadeiros, aqueles contados nos dedos) e familiares para lidar com essa situação. Pois imprensa e patrocinadores, a quem eles têm de se humilhar perante as câmeras, são uns abutres que só aparecem de quatro em quatro anos – seja no Japão, no Brasil ou em qualquer parte do globo – para lucrar com os sonhos desses jovens. Ainda que, claro, haja também o outro lado: uma vez que, sem patrocínio e mídia, o atleta não pode transformar os seus sonhos em ouro. Sim: tudo na vida tem prós e contras, e o show midiático faz parte do jogo. Só acho que, no caso dos jovens judocas, palavras de ânimo deveriam também fazer parte do “show de encerramento” promovido a cada quatro anos por imprensa e “cartolagem”.

E sim: compreendo também que essa exigência de “ouro”, no caso dos judocas, venha como consequência dos altos investimentos que, desde a base, é realizada no Japão. Investimentos que obviamente não existem no Brasil, onde, sem apoio (com exceção do preguiçoso futebol masculino), os atletas celebram e muito todo bronze e prata conquistados. E devem celebrar mesmo: pois são verdadeiros guerreiros, que, competindo contra atletas de países bem mais desenvolvidos, ainda conseguem colocar uma medalha no pescoço. É para serem aplaudidos... e muito!

E aí, no caso brasileiro, já há um outro motivo para lágrimas no que se refere a cada um de nossos bravos medalhistas. Se, no calor do momento, a imprensa e o poder público fazem uma festa pelas medalhas conquistadas, o choro de nossos atletas vem em longo prazo. Lembro-me, para citar um exemplo dessa triste realidade do “país do carnaval”, de que, em 2015, vi uma reportagem a respeito do drama do ginasta Arthur Zanetti, campeão olímpico em Londres (apenas três anos antes, portanto), que não tinha onde treinar, sendo que o único ginásio a que tinha acesso estava em frangalhos, repleto de goteiras, sem qualquer condição, enfim, para treinos.

De modo que, recordando-me dessa história do ginasta, só posso concluir que as lágrimas de prata dos judocas japoneses, pelo menos, têm uma esperança contida: a de serem transformadas, nos jogos seguintes, em sorrisos de ouro. Já no Brasil do oba-oba...

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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