Escrevo esta crônica em prantos. Isso porque, na semana passada, como muitos souberam através de meu Facebook, minha mãe faleceu em Manaus. E, sendo a dor ainda recente, hesitei muito em escrever sobre o acontecimento: na verdade, não sabia sequer se conseguiria escrever uma linha a respeito, uma vez que a perda e a consequente dor anestesiaram-me nos primeiros dias, de uma tal forma, que até a motivação literária (que sempre guiou minhas decisões) parecia haver se calado em definitivo.
Mas aí refleti: minha mãe, que sempre teve tanto orgulho de meus passos, não aprovaria essa “tristeza paralisante”. Ao contrário, continuar a escrever seria uma forma de homenagear aquela que, também uma educadora, ensinou-me as primeiras letras. Por isso, Professora Erotides Loureiro, venho hoje, através desta crônica, seguir fazendo o que a senhora me ensinou: a lutar e, assim, transformar sonhos em realidade.
Sim, minha mãe, obrigado por um ensinamento tão valioso: o da perseverança. A mesma perseverança que fez com que eu conquistasse uma bolsa de estudos para ficar dois anos no Japão. Dois anos que, como sabemos, acabaram se transformando em duas décadas: aumentando, assim, a nossa saudade, separados que estávamos por oceanos nem sempre tão pacíficos.
Foi também, graças à senhora, minha mãe, que aprendi o valor da justiça: o que fez, aliás, com que eu optasse pelo curso de Direito, em 1991. Seu sonho, mãe, tenho consciência disso, era ver-me trabalhando como advogado. Mas, se foi feliz ou infelizmente, o fato é que a Literatura acabou me seduzindo bem mais que a carreira jurídica. Sei, mãe, que por essa minha escolha, a senhora também sofreu. Perdoe-me, mãezinha, por decepcioná-la, mas eu precisava escutar a voz da Literatura. E, embora sabendo que, nessa escolha, eu não tinha sua total aprovação, eu permanecia com a esperança de que, um dia, a senhora pudesse ver em mim mais o escritor que o causídico. Sonho este que se concretizou dias antes de sua partida, como me relatou meu irmão Nilson. Ah, minha mãe, como minha emoção foi enorme ao saber que a senhora, tomando do meu livro “Crônicas de um Latino Sol Nascente”, leu ao telefone um trecho para meu irmão, comentando que achara “tão bonitas as palavras que eu escrevera a meu filho”.
Sim, mãezinha, ao escutar o mano relatando a cena, não pude segurar minhas lágrimas. Pois o mesmo Sol Nascente que havia levado um de seus filhos para tão longe, agora vinha trazê-lo de volta a seus braços, nem que fosse através das páginas de um livro.
No dia quatro de novembro de 2020, porém, mãe, sua família no Japão anoiteceu em lágrimas ao receber a notícia de que a senhora não mais estaria fisicamente entre nós, seu marido, filhos, netos e noras. Quero acreditar, porém, que nesta última jornada, seu espírito passou por uma casa em Saitama para ver o filho que, enquanto embalava uma criança, contava histórias a respeito do casal Erotides e Edwal, que, um dia, resolveu aventurar-se pelas águas do Amazonas - e de que ela, grávida, começava, ali, a escrever as primeiras crônicas de seus latinos sóis nascentes...
Obrigado, mamãe. Arigatou, vovó.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um Latino Sol Nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES).
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