Indo na contramão de muitos países desenvolvidos, o Japão está demorando bastante para iniciar a vacinação contra a Covid-19. O motivo para tal lentidão é, principalmente, a excessiva burocracia no país – consequência de um perfeccionismo até irritante, que faz com que tudo aqui leve séculos para ser decidido –, mas também uma certa desconfiança do povo japonês em relação à eficácia das vacinas aprovadas até então. E aí vocês devem estar se perguntando: o que leva um país que é símbolo de avanço tecnológico a duvidar da ciência? Acredito que a resposta está, de novo, no excessivo perfeccionismo nipônico: o que não é cem por cento seguro sempre deixa os japoneses desconfiados – ainda que não temam, por exemplo, a possibilidade de virarem “jacarés” após vacinados.
Por outro lado, no momento em que a vacinação tiver início, uma coisa é certa: a organização será a palavra-chave por aqui. Fura-filas? Podem até existir tentativas da parte dos poderosos e seus apadrinhados – afinal, o mau-caratismo é mesmo uma praga universal. Mas, se houver, a reprovação social será implacável em relação ao “furão”. Como ocorreu recentemente com o filho do ex-governador de Tóquio, Nobuteru Ishihara, que também é político. Ishihara foi internado mesmo apresentando sintomas leves da Covid-19 – tirando, enfim, a vaga de pacientes que estavam muito mais graves, esperando por atendimento. A imprensa, claro, cumpriu o seu papel e denunciou o “filhinho de papai”. Mas, como no Brasil, tudo ficou só na crítica – a Justiça no Japão também finge ser cega quando o assunto é punir políticos.
Aliás, falando em minha pátria amada, o que posso dizer? Bastou a vacinação ser liberada para que a infame carteirada, tão ao gosto da imprestável elite tupiniquim, viesse à tona. E assim, políticos, esposas e amantes passaram à frente da sofrida população para receber as primeiras doses. Lendo tais notícias, lembro-me de o porquê de ter feito de tudo para sair de meu país. Pois, oriundo de uma família pobre, sempre tive de lutar contra o favorecimento desses engomadinhos: pestes que sempre tomaram conta da Terra de Santa Cruz. Sim, o comportamento da elite brasileira (e de todos aqueles que usam da carteirada ao redor do mundo) é, para dizer o mínimo, criminoso; pois tira o direito de outros que agonizam durante essa pandemia. Mais um lamentável exemplo, enfim, de como a mesquinhez do poder econômico esmaga sem piedade o respeito pela vida alheia.
Espero que haja Justiça – terrena ou celestial – para os que gostam de esfregar, na busca de privilégios, o dinheiro e o status na cara dos outros. E que, cedo ou tarde, chegue a vez desses tipos pagarem por seus desmandos. E nessa fila, garanto, não conseguirão burlar a ordem.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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