Um dia desses, fuçando as redes sociais (voltei ao terrível vício), deparei-me com a notícia de que algumas escolas no Brasil estavam solicitando aos pais “que não fossem de pijama ao estabelecimento para deixar os filhos”. Fiquei então imaginando o que aconteceria se a moda pegasse também aqui no Japão? Certamente, o fuku dos pais brasileiros, em vez de chocar, faria o maior sucesso (fuku, para esclarecer logo aos piadistas, é roupa em japonês).
Sim, os “pais de pijama” seriam uma verdadeira coqueluche na Terra do Sol Nascente. Isso porque, ao contrário da imagem que se tem no Ocidente, os japoneses não são nada caretas quando o assunto é o vestuário. Basta dar uma volta por Shibuya ou Akihabara, lugares bastante frequentados pela juventude de Tóquio, para observarmos vestimentas de todos os tipos e gostos. A começar pelas famosas maids, as adolescentes que se vestem de empregada doméstica como parte do trabalho de divertir os frequentadores dos cafés locais. Há algumas que decidem mesmo usar o vestuário, com avental e tudo, no dia a dia. E falando em saias, há ainda os homens japoneses que saem à rua vestidos literalmente de “garotas colegiais” – isso mesmo, com saia azul, meinhas brancas, etc –, mas que dizem não ser travestis. E eu acredito. Afinal, há fetiches e gosto para tudo. De minha parte, prefiro não fazer muitas perguntas e os deixar serem felizes...
Há também o estranho caso das yamambas, palavra que remete à lenda das “bruxas das montanhas”. Com uma coloração de pele, digamos, no estilo Surfista Prateado; os cabelos pintados de louro; e as roupas dignas de um filme de Tim Burton; as tais bruxinhas ficam pelos cantos de Shibuya, fazendo não sei exatamente o quê. Mas, independentemente do que fazem ou deixam de fazer, é inegável que as yamambas já viraram um símbolo de rebeldia e moda na Terra do Sol Nascente.
E se engana quem pensa que os muitos visuais estranhos adotados pelos japoneses ficam restritos à juventude. As senhoras nipônicas, às vezes, podem também chocar os mais sensíveis. Principalmente com a famosa combinação “quimono” e “cabelos roxos”. Foi isso mesmo que leram. Não sei se por influência do Coringa ou por um erro intencional de um cabeleireiro mais jocoso, o fato é que essas coloridas senhoras são um show à parte. De modo que, se certo dia eu encontrar alguma delas deixando o neto na creche do Endi, farei questão de, no dia seguinte, ir com um de meus “pijamas de Batman” para combinar. Gotham City é aqui.
Então, caros e injustiçados “pais brasileiros de pijamas”, gostaria de dizer-lhes que sou solidário. E mais: não se preocupem com as críticas das escolas. Eles, diretores e professores, é que devem se atualizar com o que há de mais revolucionário no mundo da moda. Ou, pelo menos, vir a um cabeleireiro em Tóquio.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil esquecido”, lançado pela Editora Folheando (Pará), e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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