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Crônicas de um Sol Nascente

Feriadão no Japão

Maio e agosto são dois meses especialmente celebrados pelo povo japonês. Isso porque representam duas oportunidades de folga para os trabalhadores. Em maio, há a chamada “Semana de Ouro” (que, na verdade, são três dias). Já em agosto, tem-se o O-bon, que é uma semana para honrar a memória dos falecidos – no calendário, um dia apenas, mas que as empresas tradicionalmente transformam em uma semana para que não haja mais mortos (de fadiga) para serem lembrados no ano seguinte. Perceberam o drama? Durante o ano inteiro, um par de semanas tão somente – e isso na melhor das hipóteses, porque às vezes há a má sorte de o feriado cair num domingo – para que os trabalhadores descansem de uma jornada de onze ou doze horas na prática (foi isso mesmo que leram, uma vez que o “zangyo” ou “horas extras gratuitas” é uma tradição no país).

Que o povo japonês trabalha demais, isso já é de conhecimento geral. O que talvez não saibam é que a palavra “folga” é praticamente um tabu na “Terra do Sol Nascente e já Morrendo de Cansaço”.

Não que o direito às férias inexista na lei – são estupendos “dez dias por ano trabalhado”, vale frisar. Agora, tente o empregado japonês exigir esse direito para ver o que acontece. Chefes e colegas hão de lançar aquelas flechadas do olhar na direção do “preguiçoso”, que, temendo destoar do grupo, vai recolher-se imediatamente à sua insignificância e, consequentemente, desistir do absurdo objetivo de descansar.

E isso, claro, aplica-se também aos estrangeiros que trabalham no Japão. Ah, quantas vezes não tive a vontade de tirar umas férias, no sentido real da palavra, para poder ir ao Brasil e visitar meu pai (infelizmente, minha mãe partiu há dois anos)!... Uma viagem que, como sabem, precisaria de, pelo menos, duas semanas para ser realizada sem correrias – o que se torna impossível diante da realidade laboral japonesa. Então, queridos amigos e familiares no Brasil, a saudade, por enquanto, é tudo que nos resta. C’est la vie!

Mas, voltando aos meus castigados colegas japoneses, acredito que, num futuro muito próximo, ou essa mentalidade dos empregadores muda, ou haverá um verdadeiro caos na saúde pública. E não falo aqui somente nas taxas de depressão e de suicídio, sabidamente altas no país. Refiro-me mesmo a infartos e derrames cerebrais motivados pelo estresse, cada vez mais comuns entre os japoneses. Em 2013, por exemplo, houve um caso estarrecedor que reflete bem essa realidade: uma repórter, de apenas 31 anos de idade, foi a óbito por insuficiência cardíaca após fazer – segurem o vosso queixo – 159 horas extras em um mês! Um verdadeiro crime, enfim, perpetrado pelos chefes dessa profissional.

Crime, sim! E em série, vale ressaltar! Porque, senhores empregadores japoneses, inventem a desculpa esfarrapada que quiserem para negar o direito ao descanso; mas, se continuar assim, logo, logo, só restarão os robôs... 

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil esquecido”, lançado pela Editora Folheando (Pará) e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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