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Crônicas de um Sol Nascente

FACHOS DE LUZ

Desde fevereiro, minhas crônicas têm sido melancólicas. E não porque assim eu quisesse escrevê-las. É que realmente tem sido difícil fazer uso do humor: este um ingrediente tão necessário ao gênero que consagrou mestres como Sabino e Veríssimo, cativando-me como leitor. Mas, infelizmente, os tempos em que vivemos não são nada generosos com a crônica humorística. E, ainda que tente trazer um pouco de sarcasmo para escrever sobre o absurdo que vivenciamos, o cronista não conseguirá escapar dessa dilacerante tristeza. Afinal de contas, os temas que inspiram agora grande parte das criações literárias vêm ou dos hospitais ou dos necrotérios... Resumindo: temas pesadíssimos.

Hoje, porém, tentarei deixar a tristeza de lado para escrever somente – e tão somente – a respeito da vida. Pois, sim, pandemia, apesar de você, ainda há espaço para o otimismo e a beleza que é viver. Beleza esta que encontramos, por exemplo, no esforço humano para conectar-se com o seu semelhante. Como se testemunhou na Itália, tão logo tudo isso começou: pessoas cantando, de suas janelas, para trazer um pouco de alegria aos vizinhos confinados. Ou dos shows em casa (as chamadas “lives”), feitos por cantores e outros artistas, visando à doação de dinheiro e alimentos para aliviar o sofrimento dos mais necessitados.

Aliás, esse desejo humano de conectar-se, usando como ferramenta a internet, merece mesmo páginas de destaque nos futuros livros de História. E isso levando também em conta, claro, os heróis anônimos do cotidiano e suas criativas soluções. Por exemplo, no Japão, é comum colegas de trabalho saírem para beber após o expediente. E nem precisa “sextar” para que os chamados nomikais (encontros para beber) ocorram; uma vez que os drinques fazem parte da rotina do trabalhador japonês. Com a pandemia, porém, naturalmente, essa tradição foi interrompida. E o que fizeram os trabalhadores? Encontraram uma saída através do “zoom” (o famoso aplicativo de reuniões, sucesso absoluto nesses tempos de coronavírus). Assim, cada um liga o computador, e com um copo de bebida na mão, faz com os demais o brinde virtual para dar início ao bate-papo: como se estivem em um bar, fisicamente reunidos. E até com a vantagem adicional de, na hipótese de coma alcoólico, já se encontrarem no sofá de casa.

Além do “zoom” acima mencionado, outra forma de interação social que achei muito criativa – e alegre – foi a que os japoneses encontraram para apoiar seus times nos jogos de beisebol. Não podendo ir aos estádios (isso até meados de julho), os torcedores enviavam fotos do rosto para serem colocadas nas cadeiras das arquibancadas, como se estivessem “in loco” incentivando os jogadores. Um show de bola da torcida, para dizer o mínimo dessa tentativa tão bacana de manter a emoção do esporte, respeitando o necessário distanciamento.

Ah, essa maravilhosa força humana, que, mesmo diante da pior das escuridões, consegue encontrar fachos de luz que nos conduzam a um amanhã melhor!

Sigamos, pois, assim: de mãos dadas... ainda que seja, por enquanto, apenas em um mundo virtual.

 

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018), “Gotas frias de suor” (2018) e “Centelhas” (2019). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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