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Olhar Social

Esperançar

Diz o ditado popular que “a esperança é a última que morre”! Esperança que traduz o sentimento de que seja possível a realização de algo que se deseja; é ainda confiar em alguma coisa boa. Pode ser sinônimo de tantas manifestações: expectativa, aguardo, espera, fé, confiança, crença, sonho, possibilidade, probabilidade... 

O educador Paulo Freire, cujo centenário de nascimento comemoramos neste ano, atribui um sentido único à esperança. “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir!”

Dada a proximidade do fim do ano, em geral buscamos renovar nossas esperanças; desejos fervorosos de um ano melhor, em especial reconhecendo o que estamos atravessando em relação a tantas perdas; de maneira concreta as vidas humanas que se foram em razão da crise sanitária de Covid-19, gerida de modo caótica e irresponsável por parte dos órgãos governamentais, sobretudo o federal; perdas ainda no campo dos direitos, que se arruínam diante de reformas, privatizações, cortes no orçamento público, os quais mantem políticas sociais.

Inspirados em Freire, não vamos desistir de viver dias melhores. Assim como cantava Gonzaguinha que “a vida devia ser bem melhor e será”. E será quando compreendermos, de fato, o papel político que exercemos numa sociedade democrática; a força que temos em contribuir para que mudanças efetivamente aconteçam!

2022 será ano eleitoral. Momento em que temos a oportunidade e o dever cívico de fomentar debates políticos, ouvir as propostas dos candidatos e fazer escolhas conscientes. Temos responsabilidades por nossas escolhas, que não podem ser terceirizadas, influenciadas por interesses escusos, alimentadas por relações de ódio e violência. O que está em jogo é a barbárie versus a civilidade, não podemos nos furtar dessa escolha!

Estamos, em certa medida, desacreditados do debate político, mas é preciso compreender que não há outra saída que imprima mudanças, que não seja de cunho político; por meio do diálogo, é possível que as pessoas expressem suas necessidades sociais, exerçam seu papel político de cidadãos participativos. Política requer escolha, tomar partido de algo, exige posicionamento, como entoou o “Samba de Lado” de Chico Science e Nação Zumbi “E você samba de que lado, de que lado você samba”?  

Nesse sentido, não há neutralidade. Não escolher também é uma escolha, assim como o “tanto faz”, como alimentar a assertiva que “é tudo a mesma coisa”. Desmond Tutu, arcebispo da Igreja Anglicana, consagrado ao Prêmio Nobel da Paz em 1984 por sua luta contra o Apartheid na África do Sul, já dizia “Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”. 

Construir, ir atrás, não desistir (da luta) é esperançar e passa por nossas mãos. Cada um de nós, formando um todo, é importante nesse processo, almejando cantar que a vida “é bonita”. Bonita porque permite vida digna às pessoas. Permite que, de fato, seja possível viver e não apenas sobreviver, como tem sido a realidade de milhões de brasileiros, quer seja em virtude da fome, do desemprego, subemprego, empregos precarizados e tantas outras mazelas que incidem em seus cotidianos.

Que os desejos para 2022 nos coloque em movimento e tragam a esperança de um ano melhor. Mas está em nossas mãos escolher qual o sentido damos a esperança; também passa por nós, como nos posicionaremos frente ao pleito eleitoral: se queremos investir na barbárie ou na civilidade.


Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo

 

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