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Crônicas de um Sol Nascente

Entre fogos e fantasmas

Todo ano, em abril, o hanami – que é o espetáculo das flores – faz com que os japoneses reúnam-se para brindar à amizade e à vida. Quatro meses depois, um evento que também leva “hana” (flor) no nome tem o mesmo poder de congregar, em todo o arquipélago, familiares e amigos. É o hanabi: ou, em uma tradução literal, as “flores de fogo” – que nada mais é que um show de fogos de artifício, semelhante àquele das praias de Copacabana, durante o Réveillon.

Assisti, pela primeira vez, a um hanabi em agosto de 2002, na cidade de Quioto. E, na ocasião, lembro-me de que testemunhei, junto a outros estrangeiros, dois espetáculos maravilhosos: o referido hanabi e, logo após, o gozan no okuribi. Mas foi este segundo que, particularmente, fascinou-me. Trata-se de cinco kanjis (letras do alfabeto japonês que, por sua vez, têm origem na China) em tamanho gigantesco, escritos a partir da queima de fogos nas montanhas próximas a Quioto. Devido a esse caráter grandioso, o ritual também é conhecido como daimonji (“dai” significando “grande”; enquanto “monji” é originado da palavra “moji”, que, por sua vez, significa “letra”).

O daimonji tem como principal objetivo dar as boas-vindas aos mortos. Lendo assim, pode até assustar: parecendo que se trata de uma cerimônia para receber as eventuais almas penadas ou zumbis que, naquela noite, resolvam dar um passeio pela cidade. Mas o fato é que o daimonji, longe de ser uma “invocação”, é apenas parte de uma cerimônia religiosa conhecida como Obon – com duração de três dias e dedicada a honrar a memória dos mortos. Cerimônia esta que, vale frisar, tem um aspecto bem mais festivo que o nosso “dia de finados”; uma vez que é da tradição japonesa celebrar (mais do que lamentar) a partida de um ente querido.

Aliás, gosto muito desse talento do povo japonês em unir o fúnebre à diversão. Um talento que é demonstrado até mesmo na hora de contar histórias às crianças. Por exemplo: acompanhando, com o meu filho, todas as manhãs, os programas infantis locais, pude verificar que as historinhas neles narradas envolvem fantasmas (yurei), monstros e demônios (oni): todos apresentados em um tom bastante divertido. É o caso do Akaname, um goblin que aparece para aterrorizar os banheiros sujos, quando, na verdade, tudo o que ele deseja é “lamber” (e, assim, limpar)... os vasos sanitários. Uma graça de assombração, que acaba cativando até mesmo os adultos. Tanto que, este ano, terei o maior prazer de passar o feriado do Obon assistindo, ao lado de meu pequeno, a esses divertidos monstrinhos. Claro que, pela madrugada, também pretendo ver os famosos filmes de terror japoneses, dos quais sou fã absoluto: e, assim, relaxar, na companhia de Sadako, dos noticiários de política – estes, sim, horripilantes!

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil), em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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