“Eu só peço a Deus; Que o futuro não me seja indiferente; Sem ter que fugir desenganado; Pra viver uma cultura diferente...”
Costuma-se dizer que o contrário do amor não é o ódio, mas sim a indiferença. Uma espécie de tranquilidade de quem não se envolve ou se abala com nada; falta de interesse, atenção, cuidado, consideração; descaso ou desdém que se aplica em relações pessoais ou, num campo mais amplo, diz respeito ao viver em sociedade.
Em 1978, num contexto de guerra eminente entre os ditadores da Argentina (Rafael Videla) e do Chile (Augusto Pinochet), o cantor e compositor argentino Léon Gieco compôs uma das mais belas e fortes canções, que roga pelo respeito aos direitos humanos: “Sólo le Pido a Dios”, eternizada na interpretação de Mercedes Sosa e com versões espalhadas por todo mundo. Com uma letra atemporal, a canção consagrou-se no Brasil na voz de Beth Carvalho e da própria Mercedes Sosa, traduzida para o português em 1980: “Eu só peço a Deus”.
Para além do credo pessoal, ou mesmo em sua ausência, a melodia roga para que não sejamos indiferentes diante de tudo que fere a vida e a dignidade humana, como a guerra, injustiça, dor, mentira... Poderíamos acrescentar ainda: a fome, o desemprego, empregos precarizados, pobreza, miséria, todas as formas de preconceito, violência e intolerância em razão de gênero, raça/etnia, crença religiosa, orientação sexual...
Como escreveu Marina Colasanti – escritora nascida em Asmara (capital da Eritreia, país localizado no Chifre da África) – “Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia”. Parece que se naturaliza que pessoas vivam em situação de rua; que trabalhadores não tenham acesso a direitos sociais; que vidas possam ser exterminadas, em particular, de pretos e pobres; que a justiça seja injusta; que a pobreza e miséria se traduzam como falta de esforço pessoal e não em razão de um sistema altamente desigual, explorador desmedido da vida e do meio ambiente; que mentiras e preconceitos sejam tratados como liberdade de expressão, defendidos como informações fora do contexto; que o descaso seja a tônica de quem só enxerga a si.
No campo político, 2022 será um divisor de águas em nosso país. Enquanto ano eleitoral, iremos decidir se seguimos ou mudamos a rota. Escolher entre a barbárie e a democracia passa, necessariamente, pelas mãos de todas e todos nós. Não se envolver com o pleito, é também uma escolha, na medida em que se aceita as coisas como elas são.
Como não se abalar com a terra arrasada na qual o Brasil se encontra? Diante de mais de 620 mil vidas ceifadas pela pandemia, quando poderíamos ter acessado a vacina tão antes; de pessoas esquálidas revirando o lixo em busca de algo que engane sua fome, quando o agro, que “é pop, é tudo”, produz para exportar, porque é mais rentável, e a produção agrícola-familiar é cada vez mais desmantelada; com o aumento expressivo de trabalhadores por aplicativos, submetidos a precárias condições trabalho e renda chanceladas por retrocessos e perdas em prol das reformas impostas pelo sistema econômico!
Causaria espanto a inercia e apatia da imprensa, do judiciário e mesmo de grande da própria sociedade em geral – que parece estar se acostumando ao caos – se não fosse o descaso que nos cerca.
É possível mudar essa rota, navegar em mares serenos, que permita vida digna a todos. Para tanto é necessário se envolver no debate político, lembrar as “fake news” de 2018, que criaram fantasmas inexistentes; ao menos rememorar a melodia cantada por Beth Carvalho “... Eu só peço a Deus; Que a mentira não me seja indiferente; Se um só traidor tem mais poder que um povo; Que este povo não esqueça facilmente”!
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Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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Grande mestra e doutora .
Lurdinha , Sábado, 29 de Janeiro de 2022
Texto perfeito, retrato de nossa sociedade, de nosso Brasil, parabéns pela lucidez e comprometimento!!