Na semana passada, quando voltava do almoço para o trabalho, fui abordado por um repórter de um famoso programa de variedades no Japão – o “Getusyou Kara Yofukashi” (traduzindo, algo como “Meia-noite da segunda-feira”, que é o horário em que o programa começa). A atração, comandada por uma famosa artista chamada Matsuko Deluxe, tem como objetivo entrevistar pessoas comuns nas ruas de Tóquio, indagando-lhes a respeito de um determinado tema (e também esperando respostas bem-humoradas referentes a ele).
Pois bem: quando o repórter que me abordou percebeu que eu era estrangeiro, foi logo se entusiasmando com essa possibilidade de situação cômica, objetivada pelo programa de Matsuko. Isso porque os japoneses sempre imaginam que um encontro com um estrangeiro já é por si só uma divertida trapalhada. Tenho a impressão até de que a figura do “estrangeiro engraçado” é a base das relações internacionais em solo japonês. De modo que o estrangeiro que se insere nesse perfil acaba mesmo fazendo um certo sucesso por aqui, e isso também no “show business”. Foi o caso, por exemplo, do americano Dave Spector, que, na década de oitenta, despontou na mídia local como o estrangeiro que sabia fazer rir falando em um japonês perfeito.
Além de Spector, outro americano que se deu bem na mídia japonesa foi “Atsugiri Jason, que hoje possui até um programa infantil ¯ o “Eigo de Asobo” (Vamos brincar em Inglês). Jason começou sua carreira fazendo o papel de um estrangeiro que vivia revoltado com os japoneses, gritando “Why, Japanese people?!” (Por que, japoneses?!). Foi o bastante para conquistar o público local. Jason chegou mesmo a ser finalista em um concurso de comediantes... todos, com exceção dele, japoneses. O que foi um feito e tanto, claro!
Alguns colegas ficam chateados com essa imagem que os japoneses desejam de nós, estrangeiros. Como se só servíssimos para palhaços, queixou-se certa vez um amigo canadense. Não vejo, no entanto, por aí. Acho, ao contrário, que o riso é a forma que os japoneses, naturalmente acanhados, têm para conectar-se conosco. Tipo, esse estrangeiro está tentando compreender e integrar-se a nossa cultura fazendo coisas engraçadas... Abramos as portas, pois!
Não é o meu caso, vale ressaltar, porém: não sou engraçado nem em português. Conto aqui e acolá umas piadinhas para meus alunos, mas nada que me caracterize como possuidor de um talento cômico. Por isso mesmo, reconhecendo minhas limitações na comédia, duvido muito que minha entrevista seja exibida no programa de Matsuko: o repórter informou-me, ao final, que estaria agendada para o dia sete de fevereiro, mas não estou botando muita fé.
Não obstante, passando ou não na tevê, posso garantir que o episódio da entrevista já rendeu à minha família e amigos umas boas risadas. Além, é claro, desta crônica.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo que, em 2022, lançará mais um, agora pela Editora Folheando (Pará). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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