Fotos: Arquivo pessoal
news-details
Saúde

Eles venceram o coronavírus: confira relatos inspiradores que trazem esperança em tempos de pandemia

O padre Juzemildo Albino da Silva e o músico Carlos J. Pires superaram os desafios da Covid-19 e refletem sobre os aprendizados trazidos pela doença

Com números crescentes de casos do novo coronavírus diariamente no Brasil e em todo o mundo, é comum que as pessoas se sintam amedrontadas, redobrando os cuidados para preservar sua própria saúde e a daqueles com quem convivem.

Em Bragança Paulista, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, atualizados na manhã dessa quinta-feira, 30, há 226 casos de coronavírus notificados no município, dos quais 119 foram descartados, 79 foram confirmados e 28 estão em investigação. Dentre os confirmados, dez pessoas foram a óbito e uma morte de paciente com suspeita da doença permanece sendo investigada. 

Os números podem parecer assustadores, a princípio, já que Bragança está entre as cidades paulistas que mais possuem casos confirmados da doença e com mais óbitos em decorrência dela.

No entanto, um dado positivo pode ajudar a população a ter mais esperança durante esse período: dos 79 casos confirmados, 47 pacientes estão recuperados da doença (dados atualizados diariamente às 11h e às 16h30 na página do Facebook da Prefeitura e da Secretaria de Saúde).

Em entrevista ao Jornal Em Dia, a secretária municipal de saúde, Marina de Oliveira, afirmou que os casos de cura “representam que se as pessoas estiverem com o sistema imunológico fortalecido, a reação ao vírus é bastante positiva” e que “o futuro [da pandemia] dependente de nossas ações e comportamentos”. “Idosos e pessoas com doenças crônicas devem ficar em casa, em isolamento social e todos as demais fazerem distanciamento social, só saindo de casa se houver estrita necessidade, usando máscara, pois seu uso diminui a transmissibilidade dos vírus”, comentou.

A reportagem entrevistou duas pessoas que enfrentaram – e venceram – o coronavírus: o padre Juzemildo Albino da Silva (na foto, à esquerda) e o músico Carlos J. Pires (à direita), que falaram sobre seus diagnósticos, os desafios trazidos pela Covid-19, os aprendizados que obtiveram com a doença e as expectativas para o futuro. Confira!

JUZEMILDO ALBINO DA SILVA, 58 ANOS

O padre Juzemildo Albino da Silva, de 58 anos, sacerdote na Área Pastoral Santa Clara de Assis, no Jardim Águas Claras, em Bragança Paulista, sempre esteve acostumado com a vida pública e o intenso contato com a população. Isso mudou no final do mês de março, quando começou a sentir os sintomas da Covid-19. “Mas apenas no dia 7 de abril fui ao hospital. Fui notificado como caso suspeito e medicado para fazer o tratamento em casa. Como houve pouca melhora no período de uma semana, fui novamente ao médico e, no dia 14 de abril, fiz os testes para coronavírus e H1N1 e vários outros exames e fiquei internado até o dia 16, quando fui notificado oficialmente”, relembra. Os primeiros sintomas que o sacerdote teve foram fortes dores de cabeça e no corpo, febre e tosse intensa. “Além disso, muita fraqueza, pois não conseguia me alimentar adequadamente”, completa.

O padre acredita ter contraído a doença quando realizava uma ação social em prol da população menos favorecida. “Oferecia em média 160 refeições por dia. Além disso, fizemos máscaras para a comunidade e famílias carentes. Acredito que nesse processo de levar e trazer coisas e produtos e ter contato com tantas pessoas é que posso ter sido contaminado, quem sabe até por alguém assintomático”, conta.

Do diagnóstico à alta, passou por diferentes tratamentos, inicialmente feitos com medicamentos orientados por profissionais de saúde do hospital e, em seguida, com medicamentos próprios para tratar o coronavírus.

Desde que descobriu a doença, Juzemildo passou por vários momentos difíceis, acentuados pelo agravamento dos sintomas e o medo do futuro. “O momento mais difícil é aquele em que você começa a se comparar com todo o quadro que acontece no país e se coloca como mais uma vítima de uma enfermidade que pode ser fatal. É quando você não percebe melhoras nos sintomas e começa a desanimar”, revela.

Apesar disso, o apoio de pessoas queridas foi fundamental para sua recuperação. “Todos os dias, recebi centenas de mensagens de fé e motivação. Nunca fui abandonado pelos amigos, pela comunidade religiosa, os padres e o bispo e minha família. A oração e o apoio foram fundamentais para minha recuperação”, entrega, afirmando que o maior aprendizado trazido pela doença foi “valorizar as pessoas”.

Todo esse carinho ajudou o pároco a se recuperar e, atualmente, ele se considera curado: “Não tenho mais nenhum sintoma da doença, acredito ter vencido essa grave enfermidade. No último dia 22, voltei ao médico e os sintomas próprios da Covid já não foram identificados, senão apenas uma tosse alérgica que está curada”, comemora.

Em sua visão, os casos de Bragança Paulista são muito expressivos pois a população ainda precisa contribuir mais, fazendo o isolamento social, e ainda falta rigidez nas ações municipais. “A comunidade em si não tem colaborado com sua parcela de ficar em casa. Há muitos carros nas ruas, muitos comércios indevidamente abertos, muitas crianças nas praças e parques e a falta de uma política que seja mais atenta a tudo isso. A circulação de pessoas e veículos é muito alta, muitas filas em bancos e lotéricas e a ausência de ações mais rígidas por conta das forças de segurança no cumprimento dos decretos municipais também contribui”, opina.

Segundo ele, ao poder público, falta “um olhar mais humano para as pessoas e menos para a cidade”. “Falta compromisso e disponibilidade de exames e meios alternativos de atendimento à população. Falta a preocupação em perceber que somos sede de região e que não temos leitos suficientes e muito menos condições em atender as outras demandas de saúde, como cirurgias eletivas e outros tratamentos de médio e longo prazo. A população pode contribuir, mas a Prefeitura Municipal também precisa investir mais em pessoas e menos em obras, mais em suprimentos espaços e exames e menos em jardinagem”, completa.

Como líder religioso e pessoa que enfrentou a doença, ele reflete sobre o que essa pandemia significa para a sociedade e como ela pode ajudar a ressignificar valores. “A pandemia é o maior castigo que uma geração pode sofrer, nos leva a perder pessoas que amamos e pessoas que não sabíamos que amávamos, traz a percepção de um novo modo de ver as relações e os valores. A pandemia surge num momento muito crítico do mundo e da humanidade. As pessoas se esqueceram de Deus, abandonaram a justiça e a busca da paz; muitos abandonaram os valores familiares e o tempo de viver para os seus. É um tempo de voltar às origens, aos verdadeiros valores da vida e do mundo, isso nos ajudará a amar e a ser mais solidários, a ser mais próximos e mais amigos. Penso que é tempo de uma nova sociedade e de um mundo melhor”.

Além disso, ele acredita que a pandemia traz a necessidade de um “mundo mais humanizado”. “Precisamos de políticas que proponham uma nova ordem universal. Sonhamos com o perdão de todas as dívidas, principalmente para os países mais pobres, com políticas de distribuição de renda verdadeiras, com valorização do ser humano acima de qualquer valor capital e, sobretudo, de que precisamos muito mais de Deus e menos de nós mesmos”, pontua.

Ele ainda estabelece um paralelo entre a doença e a Campanha da Fraternidade 2020, que tem como tema “Fraternidade e vida: dom e compromisso”. “A doença que o mundo atual enfrenta deve nos levar a repensar nossos valores e nosso tempo, o quanto temos para Deus, para nossos amigos, para nossa família. Nos ajuda a descobrir que precisamos ser ainda melhores para construir um mundo melhor, uma sociedade melhor e aprender a cuidar um do outro, como lembra a Campanha da Fraternidade esse ano: ‘Viu, sentiu compaixão e cuidou dele’ [Luc.10, 33-34]”, declara.

Otimista, ele encerra com uma mensagem de agradecimento a todos aqueles que o auxiliaram em sua recuperação. “Quero agradecer a Deus pela vida, aos médicos e profissionais de saúde pelos cuidados e dedicação no meu e em cada caso. Aos irmãos do clero pela oração, mensagens de apoio e solidariedade. Aos amigos de tantos lugares e a toda a população de Bragança pela preocupação, carinho e orações, eu só tenho a agradecer, muito obrigado! Deus abençoe a todos!”

CARLOS J. PIRES, 50 ANOS

O músico e funcionário público Carlos J. Pires, de 50 anos, mais conhecido por Carlinhos, viu sua rotina mudar após contrair o coronavírus. Integrante da Banda Pires, ele fez shows no Carnaval, quando teve contato com diversas pessoas, mas acredita ter se infectado em um cruzeiro que fez com a esposa no início de março. No começo, tinha apenas sintomas comuns de gripe. “Até então, sintomas normais, tosse, dor no corpo, uma leve coriza. Fui ao médico. O protocolo já ditava 14 dias de afastamento. Neste período, o que eram só sintomas de gripe foram se agravando para febre, dor de cabeça, perda do paladar, vômito, dor no corpo. Voltando ao médico, tive minha primeira internação”, recorda-se.

A partir daí, passou por uma verdadeira “maratona” até obter o diagnóstico. “Fiquei três dias internado e, como estava com boa saturação (fração de hemoglobina saturada de oxigênio em relação a hemoglobina total no sangue), tive alta. Chegando em casa, no dia seguinte, minha saturação estava diminuindo, liguei para o médico e ele achou melhor voltar. Chegando lá, fiz o exame de Covid-19, pus um cateter, pois já me encontrava com falta de ar, optaram por internação novamente, até que depois de cinco dias, em um domingo, veio a confirmação de infecção por Covid- 19”, relata.

Inicialmente, o seu tratamento foi feito com medicamentos para H1N1, mas após o diagnóstico, mudou para o protocolo de coronavírus – entre tratamento e alta, foram 11 dias de altos e baixos, que não pararam por aí. “Foi um processo de dias de recuperação após a alta médica. Fiz algumas seções de fisioterapia em casa para expandir os pulmões, voltar a comer, pois perdi muito peso para ter mais resistência física. Hoje, posso dizer que estou recuperado”, diz.

Em seu ponto de vista, o alto fluxo de pessoas de outras cidades em Bragança Paulista pode ser um dos fatores que contribui para o expressivo número de casos da doença. “Bragança é a maior cidade do Circuito das Águas, muitas pessoas moram aqui mais trabalham em São Paulo ou têm amigos e parentes que vêm para cá, seja nos feriados ou finais de semana. A nossa contribuição é seguir à risca o pedido não só da OMS (Organização Mundial de Saúde) como de todos os órgãos envolvidos, nas esferas federal, estadual e municipal, no combate ao coronavírus”, pondera.

Para ele, a pandemia mundial de coronavírus, de certa forma, ainda é um mistério. “Há muitas especulações a respeito de como esse vírus chegou até nós. Que iniciou-se na China é uma realidade, porém, a forma que ele se expandiu que é o mistério, particularmente falando. Desde que o mundo é mundo, tivemos várias pandemias, lepra, ainda na época de Jesus, peste bubônica, gripe espanhola, epidemias mais localizadas como ebola, enfim, todas de certa forma provocada por caráter humano. Se foi de laboratório que surgiu este vírus, como alguns dizem, é a prova que não se deve brincar de Deus e com a vida humana”. 

Quanto ao futuro, Carlinhos se demonstra esperançoso. “Muitos dizem que o mundo não será mais o mesmo, pode ser que não seja, pois acredito que seremos pessoas melhores, mais humanas, e cada um verá o quão nos faz falta pequenos gestos, como um abraço, um aperto de mão, um beijo no rosto de carinho”, acrescenta.

Quando questionado sobre que aprendizados a doença o proporcionou, ele reflete a respeito da importância da saúde e de valores como empatia. “Na verdade, não foi um aprendizado, mas sim uma confirmação do que eu já pensava: não adianta você ganhar o mundo se não tiver saúde! E que sempre, em algum momento da sua vida, você vai precisar do próximo, como eu precisei: das técnicas de enfermagem, enfermeiras, médicos, cozinheiras, familiares com as orações, todos, sem exceção”.

Para finalizar, Carlinhos deixa uma mensagem de otimismo e ressalta que é fundamental ter responsabilidade coletiva neste momento para que a situação se restabeleça o mais breve possível. “Nunca imaginei contrair esta doença, estive em duas estatísticas, a dos infectados e a dos curados, mas, infelizmente, muitos não estão tendo essa sorte, ficam só na primeira. O problema existe, não se deixem enganar por aqueles que acham que é ‘politicagem’, invenção ou algo do tipo, é muito sério! Se você não acredita, saia de sua casa pelo menos de máscara, você já está fazendo bem para você e para o outro. E você, que é precavido, continue obedecendo as recomendações ditas pelos órgãos responsáveis. Tenhamos fé, logo, logo tudo voltará ao normal! Que Deus nos guarde!”, encerra.

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image