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Olhar Social

É Natal!

“Então é Natal, e o que você fez? O ano termina e nasce outra vez [...].           

A lendária música da Simone, lembrada nesta época do ano, vai embalando o clima que o final do ano traz: que o Natal e o Ano Novo estão chegando... Mas a provocação que a melodia faz não passa despercebida: afinal, “o que você fez?”.

Mesmo porque a sensação é que outro dia estávamos comemorando o Natal e ele já chegou novamente. Parece que, a cada ano, o Papai Noel tem vindo nos visitar mais cedo ou, ainda, que o ano deixou de ter 365 dias ou 366 em anos bissextos...

Na realidade, a intensidade da vida vivida – aquela que parece que 24 horas não são mais suficientes para fazermos todas as coisas que precisamos ou desejamos fazer – traz essa sensação mesmo, de que a vida está voando!

De repente o relógio toca. Já é hora de acordar e iniciar os afazeres do dia. Logo já é o horário do almoço, do jantar, a noite chega, o cansaço bate e o que não pôde ser concluído no dia fica para o dia seguinte. Mal dá pra puxar papo com o vizinho, porque se está sempre na correria. Pouco é possível reunir toda a família, porque cada um tem um horário diferente, quase nunca sobra um tempinho livre para qualquer coisa que seja e mesmo a saúde, por vezes, é negligenciada, fica pra depois se nada doer ou incomodar!

E assim se completam os anos. A vida passa. O Natal chega; e chega de novo, de novo...

“E o que você fez?”.

Fazemos muito, trabalhamos muito. Talvez sem nos dar conta disso. Nos cobramos demais, porque somos cobramos numa sociedade altamente competitiva, exploradora e desumana. O que se intensifica ainda mais nesse mundo cibernético, virtual e tecnológico, no qual as pessoas não param, não param nunca, mesmo fora do expediente do trabalho, porque ele segue acontecendo, seja pelo celular, seja pelo computador no conforto do lar!

Nesse mundo, o expediente não termina. Não há, por vezes, sábado, domingo, feriado e talvez não haja lazer, descanso, seja para trabalhadores formais, dada a acumulação e intensificação da jornada de trabalho, seja para trabalhadores informais, que, em razão da incerteza de cada dia, sobrevivem como podem, fazendo seus corres, em jornadas extenuantes de trabalho.

E assim, seguimos acelerando uma vida acelerada, na qual a pressa de cada dia faz com que abreviemos cada momento da vida: não sobra tempo para lembrar de alguma data importante, rememorar algo especial, jogar uma conversa fora, estar próximo de pessoas queridas, curtir ao vivo o que se gosta, para além dos likes e emoji, se transportar – ainda que por pouco tempo – das telas virtuais e viver o mundo real...

A música da Simone nos lembra que o ano termina e nasce outra vez. Ufa, que bom!

Porque a ideia do novo, de algo que vai começar novamente, pode permitir que tentemos fazer diferente, o que se quer diferente...

A começar pela desaceleração da vida; pela apreciação de cada momento; pelo tempo livre; pelo direito ao lazer, ao ócio e a preguiça, como escreveu Paul Lafargue, em 1880, em sua obra, “O Direito à Preguiça”, em que o autor faz uma crítica ao trabalho exaustivo e ininterrupto, realidade da classe trabalhadora da época, com semelhanças ao momento atual.

Por jornadas de trabalho – como a que está em pauta no Congresso Nacional sobre a escala seis por um – na qual as pessoas tenham tempo para si e para suas famílias; por um mundo onde o sistema não dite o ritmo das relações humanas e sociais...

Onde o tempo – o tão precioso tempo, aquele que dizem que não volta mais – possa ser apreciado com todo primor e encanto, seja no folhear de cada página do livro à espera do que a história trará; seja no aroma que exala na flor que encanta o jardim... Seja como for, mas que seja para todos! Que cada pessoa possa ter tempo, tempo para qualquer coisa que seja; e que o tempo demore a passar até chegar o próximo Natal, porque ele está voando...

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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